• Joaquim Rubens Fontes

A arte da pomba



A reunião para revisão do quadro era esperada com ansiedade pelos funcionários, suscitando muitos comentários. Pela natureza do assunto e para não provocar mais excitação dos colegas, resolvemos tirá-la do escritório, levando para algum lugar mais tranquilo, como um bar, um restaurante, qualquer ambiente livre da curiosidade da turma.


O negócio, agora, é outro. Por causa de um acidente de carro, uma batida muito besta, que a culpada quer que eu pague, mas a perícia me deu razão.


Explicou que o acidente ocorrido entrada da Paulo Frontin, que a motorista tentara virar sem dar seta, os carros se chocaram e ela, agora, acha que pode se livrar das despesas com a ajuda do guarda.


Não era minha área, não entendo nada de direito, mas mandei um garoto do escritório, que tomou conta do processo. Menos de dois meses depois, fui chamado ao tribunal, como testemunha do Evandro.


- Mas testemunhar como, se não vi nada?


- Só para falar do comportamento dele, que o senhor conhece.


Ossos do ofício. Tinha de ir e fui. Cheguei cedo. Eu, a Perpétua, a opositora e um colega dela. Nem a advogada dela nem o do Evandro havia chegado. Perpétua era uma mulher de cerca de quarenta, morena, olhos negros e de convicção. Falava como se entendesse de tudo. A conversa foi sobre o tempo, o governo, o trânsito e sei lá mais o quê, para passar a hora, que o juiz também ainda não havia chegado.


Quem apareceu primeiro foi o Evandro. Como sempre de terno de linho branco, muito bem passado, gravata vermelha bem ajustada, óculos escuros e lencinho no bolso. O perfeito nortista. A única diferença era a marca deixada por um pombo mal-educado, na entrada do prédio, que lhe acertara em cheio a lapela direita, fazendo um borrão nojento e muito feito.


Constrangido, Evandro ainda tentou cumprimentar os presentes, mas todo o mundo virou-lhe a cara. Estava nojento demais.


Foi a secretária do tribunal, que teve a ideia de ir a toalete buscar um papel, para tentar fazer a limpeza, mas piorou muito, espalhando a porcaria toda. Agora, então, estava feia demais.

Cada um tinha uma sugestão. Tirar o paletó, ficando com ele no colo, o que Evandro não aceitava. Preferia tirar as calças a tirar o paletó, ficar de cueca a só de camisa.


Aborrecida, ou penalizada do estado do adversário, Perpétua foi ao toilete, molhou bastante o lencinho que trazia na bolsa e tentou a limpeza. Ficou ótima! Uma mancha de merda de mais de dez centímetros quadrados. Um nojo só!


Enquanto o juiz não chegava, nem começava o julgmento, o asssunto era só um e cada um tinha um palpite, até que a sessão foi cancelada pela ausência do magistrado, que telefonara avisando que faltaria por razões de força maior. Assim, valeu a sugestão de Perpétua, que pegou o adversário, meteu no carro e levou para sua casa, que era nas imediações do foro, para lavar direito a mancha. Não tinha outra solução.


- Tem de lavar bastante, que senão não sai.


Não sei se conseguiu fazer direito o serviço, ou se acabou mandando para a lavanderia, nem quem fez o conserto do carro. O que a gente ficou sabendo depois foi acabou vendendo o carro, que era mais velho que o do Evandro, e o apartamento só tinha uma vaga na garagem.


Do pombo, ninguém nunca mais teve nenhuma notícia.

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