• Joaquim Rubens Fontes

A bolsa da discórdia


Helenice é uma moça bonita, esbelta, olhos castanhos e cabelos também. Modesta e educada, seu problema é a cara de sono. Vive no outro mundo, como se estivesse vendo as estrelas e, se descuidar, boceja a qualquer hora, sem constrangimento. Pelo que se sabe, seu sonho mora na esquina, mas tem namorada rica e nem quer saber de trabalho. Muito distraída, Helenice nunca se lembra de onde põe as coisas e, quando vai procurar e não acha qualquer objeto, bota a culpa na mãe ou na empregada, que não gosta que ninguém mexa em seus guardados. Os amigos dizem que, numa disputa com a tartaruga manca, ela chegaria em terceiro. Preguiça? Sei lá, que se não trabalhasse bem já teria sido dispensada do emprego. Deve ser por isso que vive metida em tantos rolos.


A última confusão criada por ela, que eu sei, foi por causa de uma bolsa, mas...

Ela mesma contou, num desabafo constrangidamente engraçado. Havia perdido a bolsa marrom, nem fazia ideia de onde poderia ter ido parar. Revirou a casa inteira, procurou por toda parte, fuxicou todas as gavetas e armários e nem sinal. Ficou chateada, ninguém gosta de um prejuízo assim mas, felizmente, não tinha nada dentro. Perturbou a tranquilidade da mãe. Acusou de novo a empregada, mas não houve meio, ninguém sabia nada de bolsa marrom nenhuma. Problema dela, que se virasse.


─ Paciência. Não tinha nada mesmo. Acho que só o pacotinho de lenços de papel, os cigarros e uma nota de vinte reais. Vinte? Sei lá. Acho que nem era de dez, devia ser de cinco, não vão fazer ninguém mais rico nem mais pobre.


Conformada, afinal, ficou de passar no shopping para comprar outra bolsa marrom, que fazia muita falta, esquecendo da fujona. Ou melhor, ia pedir à mãe para comprar outra bolsa, que ela própria não tinha saco para ficar procurando nas lojas por aí, era sempre a mãe mesma que comprava, que entendia dessas modas.


E a mãe compraria sim, se a filha se lembrasse de pedir algum dia, mas até lá... E nem era só de bolsa que esquecia.


Somente à tarde, quando a mãe perguntou se não estava atrasada, foi que se deu conta da festa de noivado da Ane. Não podia deixar de ir à casa da colega de trabalho. Fizera até planos de comprar outro vestido, e nem cuidara disso. Foi uma correria só, para tomar banho, arrumar os cabelos, colocar base e escolher a roupa. Tinha uma calça bege, que nem havia estreado ainda, podia ir com ela, ficava muito bem. Foi só pedir à mãe para dar uma alisadinha com o ferro. Blusa tinha muitas. Escolheu a que achou que combinava mais com a calça, meteu o colar de pérolas, calçou um sapato marrom e foi pegar a bolsa. Ficavam penduradas no armário, umas seis, dela e da mãe, que nenhuma tinha dona certa, quem precisasse que pegava e estava tudo bem. À falta da bolsa marrom para combinar com os sapatos, escolheu uma preta, que nem se lembrava de ter usado alguma vez, mas lhe pareceu adequada, nem muito grande nem muito pequena, jogou dentro o celular, a identidade, ia botar um pacote de lencinhos de papel, para o caso de faltar papel no banheiro, mas viu que já tinha outro e desistiu. Finalmente, guardou uma nota de vinte reais na bolsinha lateral, os brincos que sua mãe havia comprado para a noiva, e foi cuidar de espargir um perfuminho, antes de pegar o táxi.


A festa já ia animada, quando chegou. Abraçou todo o mundo, pegou uma tacinha de vinho branco e ficou conversando com as amigas. Assunto não faltava. Tinha colega que ainda não havia chegado, colega que precisara sair mais cedo, as esposas ou as ex-esposas dos colegas, artistas de televisão, muita gente para falar mal. Da noiva, é claro! ninguém falou nada. Perfeita! Todo mundo gostava dela, a admirava.


Falaram sim dos salgadinhos, que estavam com muito gosto de velhos. Do espumante, sem gelo, que não descia. Da música, do tempo da vovó e, o pior, ninguém quis ficar na cadeira próxima à janela, com o cheiro desagradável de um resto de quibe que ia se desfazendo.


Felizmente não havia moscas.


─ Detesto vento nas costas – era a desculpa de quem era indicada para a cadeira.


Foi à saída que o bicho pegou. E pegou muito feio.

Queixando-se do cansaço e um pouco de dor de cabeça, Bernardete foi a primeira a dar ponto de ir-se embora. Saiu despedindo de todo o mundo, trocando beijinhos e elogios à noiva e à festa, quando a mãe de Ane chegou com a bolsa.


─ É esta aqui, a sua, não é?


Foi um estouro de Bernardete, ao reconhecer a antiga bolsa roubada. Dominada pelo ódio, de olhos muito abertos e mãos esticadas, tratou de pegar a bolsa, descarregando toda ira.


─ Foi esta sim que me roubaram no réveillon do country. Como foi que a ladra teve a ousadia de usar hoje!


Não entendendo o que se passava, a mãe de Ane ficou pasma, sem saber o que dizer ou o que fazer.


Nervosa e falando muito alto, Bernardete abriu a bolsa, olhando no interior. Achou logo o celular e a identidade de Helenice, viu quem a havia roubado, e disparou contra ela.


─ Bandida! Safada! Tinha certeza de que tinha sido você que roubara, e agora tenho a prova.

Acordada à força das acusações, Helenice procurava explicar o que não tinha explicação.


─ Mas esta bolsa é minha sim. Veja a inicial pregada no couro. Pode perguntar...


Irritada, Bernardete fuçou as coisas na bolsa, tirando a carteirinha com seus documentos, inclusive a carta de motorista e duas notas de cinquenta reais.


─ Que sua inicial, sua safada? Não está vendo que é um “b”, de Bernadete, não tem nada de “h” não. E aqui, ó, veja de quem são esses documentos na carteirinha, sua vagabunda!


Nervosa, Bernardete voltou a examinar a bolsa, mas, ao dar com alguns pacotinhos brancos na seção lateral trancada com um fecho, reconheceu facilmente e, lembrando do que continha, tomou um choque, que procurou disfarçar, com medo de que alguém quisesse verificar melhor o conteúdo da bolsa. De repente, se lembrava do pânico vivido desde que a bolsa desaparecera, pensando que a mercadoria poderia ser descoberta e chegar à polícia. Assustada, cessou a cachoeira de ofensas, para satisfação da mãe de Ane, empenhada na difícil tarefa de acalmar as contendoras e contornar a briga, evitando um escândalo mais sério. A sorte foi que Helenice, muito confusa, também não parecia assim tão segura da posse da bolsa.


─ Só a mamãe que usava.


Mas a situação só foi mesmo contornada quando Bernadete, cansada e aborrecida, disparou porta a fora, com a bolsa ao ombro, rebolando as nádegas, para tomar um táxi, sem despedir das colegas.


Azar de Helenice, que teve de ir-se embora sem bolsa.

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