• Joaquim Rubens Fontes

A ladeira do amor


Dizem que sonhar com queda indica que a pessoa está crescendo.

Sei lá! Se fosse verdade mesmo, Rogê deveria medir para mais de uns quatro metros e ainda está aí essa bostinha de gente. Não sonhava com outra coisa, aliás, não tinha outro pesadelo, conforme contava a todo o mundo.


Ele e muita gente que conheço. Rogerinho, ou Rogê, que era a mesma pessoa, sentia muita vertigem, pavor de altura, que não andava de avião, nem na roda gigante, nem podia subir acima do terceiro andar, que reclamava de tonteiras. Mas também sentia medo de qualquer barulho ou confusão, morria de pavor de ser assaltado, tremia diante do chefe na repartição, mas o que o punha em pânico mesmo eram as repreensões da mulher, que Carol, a dona Encrenca, tinha mais de um metro e setenta, e era uma onça muito feroz, que se garantia em qualquer parada. Deus me livre de enfrentar um algoz tão terrível, te esconjuro bicho feio. Aí não posso censurar o Rogê, que acho que tinha razão, que ninguém fica muito contente com as broncas que toma em casa não. Mas cada qual no seu canto chora seu tanto é como diz o ditado.


É possível que muita gente mais nova talvez não entenda direito essa história de tobogã, que o pessoal da balada nem imagina o furor que fez naquele tempo, e até existam pessoas que não conheçam ou ignorem o funcionamento daquele estrupício. Também não duvido que ainda haja algumas daquelas geringonças plantadas por aí, com certeza com uns poucos admiradores usando apaixonadamente. Deixa para lá, tem gosto para tudo nesse mundo, mas eu não recomendo.


O que certos jovens talvez não saibam, nem imaginam ou façam ideia, é do sucesso que o azarado equipamento fez quando foi lançado, lá pelos idos de setenta. Coisa de doido mesmo. Era moda, pronto! Programa de todo o mundo nos fins de semana. O cara podia ir sozinho ou com a família, passear em São Conrado ou na Barra, aproveitando o fim de semana, levava os filhos todos, tinha até gente que ia com a namorada ou a amante, só para mostrar que era macho de verdade, que não tremia na descida, para fazer cartaz com a dita cuja, era isso.


O problema estava nas filas desagradavelmente longas que se tinha de enfrentar, que tomavam muito tempo, para mais de meia hora cada uma. Tanto para estacionar, como para comprar os ingressos, ou para subir e pegar o tapetinho de descida. Tinha de ter muita fissura e paciência para chegar lá.


Rogê foi um dos malucos. Largou o jantar de casa uma sexta-feira, que nem queria ir para o céu aquela noite, que Deus o perdoasse, estava com o melhor anjo do paraíso, o mais bonito e encantador. Teve uma noite premiada, desfrutando os encantos e os carinhos de Lurdinha, no melhor apartamento do motel, pena que as horas assim passem tão depressa. Mas valeu. Se valeu! Estava feliz. Nem podia comparar a satisfação de ficar com aquela deusa maravilhosa, com as obrigações conjugais de aturar uma esposa, como Carol, que não tinha sequer uma palavra de carinho ou de incentivo ao parceiro, só sabia reclamar, ficar se queixando numa hora tão imprópria, mandando tirar a mão dali, não pôr a perna em cima dela, que estava machucando, coisas que destruíam todo o romantismo, toda excitação. Com Lurdinha, graças a Deus, era diferente. Só felicidade, gostava de tudo, queria mais, sabia levar o companheiro ao céu.


─ Ah! Como a Lurdinha não há!


Foi na volta do motel, passando por São Conrado, que, ao notar o estranho movimento na praça, a musa quis ver melhor, conhecer o brinquedo que estava atraindo tanta gente, descobrir por que estava encantando tanto aquele povo. Foi só falar e Rogê tratou de estacionar, para fazer-lhe a vontade. Mas quem não faria o mesmo?


O segundo pedido da divina dama foi para dar uma descidinha rápida naquele escorregadouro, que devia ser maravilhoso, uma sensação de tirar o fôlego, mas Rogê ficou relutante, não fazia muito seu gênero. Estava com medo de fazer feio, de fracassar na hora final, não era muito dessas aventuras, os meninos reclamavam, ficavam aborrecidos, mas não podia recusar um pedido de seu anjo. Aliás, não era um pedido, era uma ordem. O jeito foi fechar os olhos, dizer sim e ir tirar os ingressos. Muito confiante, depois, tentando não pensar no perigo, deu a mão à namorada e subiram agarradinhos as escadas, como um casal de passarinhos muito feliz. Lurdinha foi a primeira a pegar o tapetinho, um branco e rosa, que o moço lhe passava, deixando o maior para Rogê, um azul-marinho, de flanela.


Controlando o acesso à descida, havia outro funcionário, um escuro muito forte, suando por todos os poros, que se irritou com a indecisão de Rogê, querendo desistir justamente na hora de descer daquela altura toda, ninguém podia perder tempo, havia muita gente esperando, as filas estavam crescendo depressa, e sem nenhuma delicadeza o cara empurrou o casal para a beirada da rampa, gritando para que descessem logo. Foi Lurdinha quem pôs o tapetinho primeiro e se sentou, fazendo com que o namorado a acompanhasse. Sem ter mais como fugir da assustadora tarefa, Rogê se abaixou, ajeitou o tapete, como vira a namorada fazer, abrindo um pouco a camisa, soltando um largo suspiro e...


─ Seja o que Deus quiser!


Não sei se chegou a terminar a frase, com Lurdinha atracada ao pescoço, gritando como uma desvairada e balançando as mãos, muito feliz.


Rogê não conseguia corresponder a tanta euforia, principalmente depois do susto de ver lá embaixo, junto à cerca de proteção, seus dois filhos, ao lado da mãe e dos avós, todos de olhos muito arregalados, fixados em seu rosto, esperando a queda final, que durou pouco mais de um século e meio para o valoroso herói.


Inexplicável o comportamento de certas pessoas. As crianças, que não tinham noção do risco, não estavam nem aí, nem ligavam para a altura da rampa, desciam sentadas, desciam de barriga, desciam rolando, desciam gritando e fazendo gestos para a mãe, que ficava lá embaixo torcendo. Todos muito alegres e divertidos.


Pois é. Se era brinquedo, coisa para criança, também para que os chatos dos adultos tinham de se meter naquilo? Estavam caçando problemas, sarna para se coçar, estavam sim, depois nem São Jorge com duas espadas podia livrá-los do perigo.


Exatamente o caso do Rogê. Todo o mundo podia ver, mas deixa para lá com seu sofrimento.

Um cara sério, com um emprego decente, casado, pai de filhos, com uma boa ficha na empresa, coitado… Queria mostrar que tinha coragem.


Que se soubesse, Rogê sempre foi um cidadão muito direito e fiel, que nunca se metera com a mulher dos outros, nem saíra do sério. Eu e ele, éramos talvez os únicos da seção, mas… Entretanto, sempre há uma primeira vez e a dele foi terrível. Deus me livre!

Mas era chefe, não tinha nada que reclamar da sorte.


Ao lado do serviço da empresa, que não diminuía nunca, sempre havia uma guerra, com a disputa às vésperas das folgas mais longas como o Carnaval, a Semana Santa e os feriados que caíam na segunda ou na sexta-feira, todo o mundo querendo desfrutar o descanso maior, tinha programas preparados para sair da cidade, aproveitar a parada mais comprida para ir para a Região dos Lagos ou para a Serra, ou até mesmo precisando viajar para outras cidades, como para a terra natal, a ver os pais, os amigos ou resolver algum negócio pendente. Cada um defendia suas razões, seus argumentos, e venciam os melhores políticos, que sabiam negociar. Ou os chefes, que decidiam, tinham prioridade.


Foi num fim de semana próximo da Semana Santa, que por acaso ocorreu a merda com Rogê. Tinha dois compromissos importantes, não ia poder viajar, que o colégio dos meninos não daria folga aos alunos e o médico de Carol havia agendado um checkup muito sério para ela. Conclusão do jogo, perdeu a porra da folga e ia ter de ficar em casa, lavando as vasilhas, tomando conta dos meninos e vendo televisão, mas...


Uma coisa é o compromisso, outra a disposição de atendê-lo. Rogê não tinha a mínima intenção de ficar em casa, preso no quarto, brincando com as crianças, afinal ninguém é de ferro. Conhecendo a rotina do departamento, sabia muito bem como se livrar dos aborrecimentos.


A questão toda passava pelos serões na empresa, que não podiam ser esquecidos. Sim. No trabalho de processamento de dados, os funcionários nunca podem ter um horário muito rígido, porque são as necessidades do serviço que determinam. Às vezes, o movimento parecia ir muito bem, sem depender de ninguém, quando, de repente, ocorria um eventual problema na máquina, e danou-se tudo! Um verdadeiro desastre, o mundo inteiro vinha abaixo! O pobre do técnico encarregado pela rotina era chamado às pressas, tinha de ir correndo para o centro de serviços, ficando por lá acertando as falhas, fosse a hora que fosse, a família sabia, estava acostumada, fazia parte do contrato. O atendimento aos clientes sempre em primeiro lugar. Por isso, normalmente eram designados alguns responsáveis para acompanhar os trabalhos da noite, e ninguém podia se negar. Isso era a pura verdade, mas, sabendo como a coisa funcionava, os caras mais espertos aproveitavam o serão folgado, para um encontro com os colegas, para tomar um chopinho, para ir ao futebol ou até para ir dançar nalguma boate, ou... Pintasse uma garota legal, o funcionário não tinha problema, estava livre, com uma boa justificativa para apresentar em casa, era só botar a culpa no serão e a mulher, que às vezes gostava de comer, ou tivesse de alimentar os filhotinhos, pretendesse comprar umas roupinhas melhores ou ir ao cinema com as amigas, tinha de aceitar, não ia brigar com o maridão. Menos a Carol, mulher do Rogê, que jamais participava dessas tramoias. Precisasse ficar, ficava, mas queria saber tudo direitinho, a real necessidade do serão, o horário, os colegas de turno, e, mesmo assim, brigava de qualquer jeito. Não houvesse real necessidade de ficar na repartição, Rogê tinha de voltar logo embora para casa. Mas isso foi só até a Lurdinha aparecer.


Sim. Lurdinha era diferente. Em tudo. Fosse descrever esse monumento de mulher, falar tudo mais o que a gente pensava dela e não ia caber no papel. Era mais que simplesmente uma loura espetacular, de olhos brilhantemente azuis, corpo violonicamente de medidas corretas e uma simpatia de seduzir o mais devoto e piedoso fiel. Simpatia só não, era linda mesma, e extrovertida. Brincava com todo o mundo, sorria encantadoramente a qualquer um que lhe jogasse uma piadinha, mexesse com ela ou levasse a mão ao bolso. E, para complicar, era recém-divorciada do patife do Felipe, um malandro muito esperto, metido a guia de turismo. Ou seja, um vagabundo mau-caráter, que não merecia tanta beleza de uma deusa. Digamos ainda, para não ficar falando só da perfeição de um anjo, que Lurdinha não era tão inteligente como as demais colegas, já que costumava trocar o nome de alguns objetos, revelar certas inconveniências, e tinha a voz meio enrolada, um pouco fanha, coisas que não incomodavam ninguém principalmente na hora de...


Pois é. Esse maravilhoso monumento da perfeição feminina chamado Lurdinha trabalhava num colégio no mesmo bairro de Rogê e era professora de seu filho mais velho: o Lucas, que a adorava. Para aliviar o trabalho da esposa, ou apenas para cumprir-lhe as ordens, Rogê, frequentemente, tinha de levar ou buscar os meninos no colégio, encontrando-se com a grande mestra. Era então um momento de real felicidade. Está aí a razão de obedecer tão docilmente às ordens da mulher. Ver aquela deusa compensava qualquer sacrifício, só tinha medo que a Carol desconfiasse e...


Quando ocorreu a separação de Lurdinha com o Felipão, coisa que muita gente já esperava e se lançou na concorrência para preenchimento da vaga, ficando a sorrir para a musa, a oferecer-lhe flores e bombons, a fazer piadinhas sem sucesso. Se alguém avançou o sinal, convidou para jantar ou para o cinema, a notícia não vazou, ninguém ficou sabendo. Mas, afinal, quem não queria aquela maravilha? Até eu, que sou mais modesto, se algum dia imaginasse que poderia ter a menor chance…

Pois é. Foi na sexta-feira anterior à Semana Santa, com muito serviço para processar, que Rogê, de cara aborrecida, avisou a esposa que ia precisar trabalhar até mais tarde, estava designado para o serão, até umas dez ou onze horas, que não o esperasse para jantar, uma vez que não tinha hora para voltar. Coisas da vida. Problemas do processamento de dados.


─ Como qualquer coisa depois no restaurante da empresa mesmo.


A novidade em sua casa, porém, foi a chegada, pouco depois do almoço, dos pais de Carol, vindos de Rio Bonito, uma cidade a cento e poucos quilômetros do Rio, para ver a filha e os netos. Matar as saudades, coisa de avós.


E Rogê, de fato, não apareceu para jantar, nem telefonou avisando da hora que deveria vir. Nada de anormal, a família compreendia, estava prevenida. O problema era o que Carol poderia fazer sozinha para segurar os meninos e distrair os visitantes, controlar o tumulto, que ninguém estava mais a fim de ver televisão, nem se sabia mais que joguinho inventar para ocupar o tempo dos filhos. O melhor, então, concluiu a eficiente senhora, seria tirar todo o mundo de casa, dar uma saidinha, um giro por aí, mostrando as novidades aos pais, e resolveu levá-los a passear, a espairecer junto ao mar. Não tinha qualquer propósito de ir mais longe, mas os meninos estavam doidos para ir a São Conrado conhecer o tobogã, ver como funcionava, que era só o que os colegas falavam na escola, e os velhos também gostaram da ideia, convencendo Carol a atendê-los.


─ Desde que ninguém peça para descer naquela maluquice.


Crianças e avós ficaram alucinados com o brinquedo. Precisava ter coragem para sentar naqueles tapetinhos e escorregar até embaixo, e chegar são e salvo.

Foi com surpresa que os meninos logo descobriram a professora Lurdinha, aos gritos e abotoada ao pescoço de Rogê, muito apavorado. Até Carol ficou emocionada, mastigando a língua de ciúmes.


Foram poucos segundos de descida, mas muito emocionantes. Rogê, com a cara de quem via assombração, parecia estar indo para o inferno. Abrisse um pouco mais os olhos, as sobrancelhas teriam ido parar no alto da cabeça.


Terminada a queda, ao levantar-se, ainda cambaleante e tratando de se livrar do anjo que continuava agarrado a seu pescoço, Rogê parou bem em frente aos cinco juízes e, aproximando-se do filho mais velho, afirmou com convicção, para ninguém nunca mais pôr em dúvida sua condição de macho.


─ Pronto! Vocês viram, não foi? Quero ver quem agora vai me chamar de cagão.

Rio, 09.04.20

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