• Joaquim Rubens Fontes

A melhor coisa do mundo

Atualizado: Mai 25



Quem quiser pode discordar, mas não mudo de opinião. Muita gente elogia o mundo das crianças, que a infância é a melhor fase da vida, mas tenho cá uma séria restrição: é muito chato ouvir os adultos falando o tempo todo de coisas que a gente não conhece, não entende nada, tendo de ficar balançando a cabeça, como um burrinho de presépio.


Falando sério. É um aborrecimento, mas…


Costumava ficar na porta da venda de meu cunhado, escutando meu irmão com os amigos falando de aventuras, de vitórias e de coisas boas, que eu nunca experimentara nem sabia se iria experimentar. Cada um apresentava seus argumentos, dava uma justificativa, provando que as melhores coisas da vida eram acertar na loteria para ficar muito rico, receber uma boa herança para gozar a vida, tomar uma cachacinha e pegar uma mulher bonita.


Veja! Era criança, não tinha dinheiro para jogar na loteria, somente minhas bolinhas de gude.


Além disso, sou o derradeiro de uma prole muito vasta, nem em sonho poderia esperar qualquer herança, estou fora dessa. Cachaça até provei um dia, meio escondido, mas desceu queimando a garganta, enquanto minha irmã me esquentava a boca de bolachas e mamãe decidia os castigos que me aplicaria, e iriam ser muito severos. Tinha em casa uma porção de irmãs – eram seis, convivia com elas e não via nada de extraordinário, nada que me encantasse. Só chatura mesmo, como eram chatas! Na verdade, sonhava com o dia que se casassem todas, fossem embora e me deixassem em paz em casa.


Também não via coisa nenhuma tão atraente, que pudesse encher os olhos. Tinha pouco mais de dez anos e vivia na roça, ao lado da venda de meu cunhado, de cereais, bebidas e fumo de rolo. Ah! Tinha algumas ferramentas, pregos e arame farpado também. Depois foi que mudamos para outro sítio, bem longe, mas, por questão de economia, a família se dividiu, ficando uma parte na cidade, enquanto os meninos foram com os velhos, para o alto da serra.


O lugar até que era encantadoramente bonito, cercado de florestas no pico dos morros, de cafezais e milharais pelas roças, com muitas cobras e ninhos de passarinho, e havia um tanque de água muito limpa, que diziam ter propriedades medicinais. A sede da fazenda era bem ampla, embora carecesse de conforto moderno, que não tinha iluminação elétrica nem água encanada, e o esgoto era recolhido numa fossa, que precisava ser limpa a cada seis meses.


Éramos apenas os cinco no sítio: papai, mamãe, a mãe-preta, que cuidava da cozinha e das roupas, eu e meu irmão, um ano mais velho. No mais, só os dois agregados: um sempre de perna quebrada e o outro curtindo uma cana pesada, vivia bêbado, ninguém podia contar com os dois para nada.


Foi numa tarde de temporal que mamãe e a ajudante dela passaram mal, ficaram bastante perturbadas, quando foram alcançadas por uma rajada de vento, pareciam duas malucas, correndo pela casa, se trancando nos quartos. Mamãe foi para o quarto onde o papai padecia de um chorado reumatismo, não podendo se levantar para nada.


Mais tarde, já entrando pela noite, quando a situação começou a se acalmar, o velho decidiu mandar chamar um carreiro, para nos levar de volta à cidade, para ver o o caso das duas não seria de médico. Sim, que a estradinha do morro era tão estreita e esburacada que lá em cima não chegava nenhum automóvel. Até o carro de boi às vezes enguiçava. Quem teve de ir levar o recado ao carreiro foi exatamente eu, com meus espertos catorze anos, o único soldado em condições de lutar, que meu irmão também curtia uma perna quebrada no futebol, havia mais de dois meses.


Pois é. Fui quase correndo. Pouco menos de meia légua, com o pulmão na boca para não demorar. Levei o recado de papai, combinei com o carreiro, e voltei depressa, para ajudar na arrumação da viagem, programada para bem cedo, na manhã seguinte. E seu Raimundo, o carreiro, foi bem pontual, como sempre. O carro chegou coberto de lona para proteger da chuva, e com as duas melhores juntas de boi. Foi só ajeitar as coisas, embarcar o pessoal e sair, tinha pouca coisa para levar, mas…


Logo após a porteira do sítio, havia uma cratera muito feia, e seu Raimundo precisou descer para orientar os animais e controlar as rodas, evitando um acidente mais sério. Não conseguiu fazer muito, porque uma cobra cinzenta, que jazia enrolada no fundo do buraco, avançou em sua perna, fincando-lhe os dentes, e fugindo rápida.


Um susto que afetou todo o mundo.


Após o incidente, qualquer um podia perceber o sofrimento do carreiro, vendo como o lugar da picada da cobra ia ficando cada vez mais roxo e inchado, fazendo-se uma ferida muito feia.


Um caso urgente. Solução? Todo o mundo sabia. Precisava aplicar imediatamente o soro antiofídico. Mas ali, no meio da roça, era difícil. Felizmente alguém, acho que foi Palmira, a mãe-preta, que sabia tudo, se lembrou da botica de seu Nestor, que não ficava muito longe, logo ao pé da serra.


E, mais uma vez, fui eu que tive de sair correndo em busca de ajuda.


Era uma vendinha pobre, com alguns remédios de primeiros socorros, as pomadas tradicionais, os analgésicos mais usados e antiácidos para as ressacas, e o vendedor com alguma habilidade para os curativos mais simples.


Ouvindo a história da cobra, e sabendo da gravidade do caso, seu Nestor, o boticário, não demorou, voltando comigo depressa. Vinha chutando os torões da estrada, bufando e tossindo de cansaço. Ao alcançar o carro, que conhecia pelos bois, avaliando o estado da perna do carreiro, muito inchada, foi logo aplicando a injeção e decretando que precisava repousar. Não podia continuar trabalhando, tinha que ir para a cama imediatamente, e eu, que nunca tinha conduzido nenhum carro, fui que tive de acabar de levá-lo à casa do ofendido.


Fiz minha parte, o que era possível, mas...


Pois é. Com tanta gente em casa e no carro, não tinha ninguém para levar nossa família à cidade. Azar demais. Preocupados com o problema, papai e seu Raimundo puseram-se a cogitar um mundo de hipóteses, imaginando alguma solução, toda espécie de providências, como mandar chamar não sei quem, esperar a passagem de outro carreiro, que talvez pudesse socorrer, mas nada podia resolver. Foi de seu Raimundo a ideia, que até poderia parecer meio maluca: mandar a filha dele levar, a Zelinda, de quinze anos, que costumava cuidar dos bois à tarde e sabia controlar o carro. Com a ajuda e supervisão do papai, podia muito bem executar a tarefa.


─ Só duas léguas de estrada, que nem está muito ruim. Pode confiar. Vai dar certo sim.


Dito e feito, deu a guiada à menina, mas, na verdade, nem era por confiança, era mais por necessidade mesmo.


E lá se foi a família toda. Quem tomou o comando no banco do carreiro foi ela mesmo, a Zelinda, comigo ao lado, ajudando a olhar a estrada e a gritar com os animais, até a cidade.


─ Pra direita, Rosado.


─ Segura, Capitão.


─ Força Rosado.


Não sei se levamos mais ou menos tempo que qualquer outro condutor, mas sei que chegamos e isso é que era importante. Eu mesmo, confesso, não estava com pressa nenhuma, achando muito bom ficar ali ao lado da Zelinda, desfrutando de sua companhia, sentindo seu cheirinho bom e ouvindo seus casos. Ouvindo as histórias dela, esbarrando naquelas coxas duras e lisas e vendo os limõezinhos que despontavam em seu peito. Um ano mais velha e um pouquinho mais alta, de cabelo louro, escorrendo pelos ombros, cintura fina e a parte de trás saliente. O vestido, provavelmente o melhor que possuía, era branco, de fazenda fina, com um rendadinho junto ao decote. Nunca tinha visto uma menina tão atraente, tão simpática. E me tratava com respeito, como se fosse alguém mais velho e muito importante.


Mas chegamos tarde sim, no pé da noite, e foi só o tempo de descarregar o carro, levar os animais para o pasto, jantar e cair na cama, que mamãe, já restabelecida do susto na roça, não titubeou com os cuidados das crianças.


─ Pra cama, já!


No dia seguinte, uma sexta-feira, que Zelinda passou conosco para descansar e porque o tio só poderia vir buscar o carro no sábado, aproveitamos para conversar e brincar muito, para ir à ponte, conhecer o campo de futebol, até à igreja. À noite apareceu a meninada da vizinhança, com duas companheiras, que toparam as brincadeiras dos garotos, e pegamos um pique esconde muito animado, valendo qualquer parte do centro da cidade e aí…


Conhecia bem, de outras noitadas, a velha casa de seu Mateus, na rua de baixo, agora fechada, caindo aos pedaços, e sabia do portão quebrado, que a gente podia abrir, forçando um pouco, e me lembrava de uma manilha mais larga esquecida por lá, o lugar mais seguro para a gente se esconder. Para mostrar competência e agradar a companheira, corri com ela para lá, passando sem problema pelo portão, entrando para o quintal, onde tinha certeza de que ninguém iria nos procurar. O golpe era se esconder na manilha, e mandei que a Zelinda entrasse primeiro, bem lá no fundo, para não deixar nenhuma pista aos pegadores. Eu entrei logo atrás, agarrado à cintura da dela, empurrando bastante para esconder melhor, e ficamos bem apertadinhos, eu colado atrás dela, com os lábios encostados em seu pescoço e abraçando seu peito, amassando os limõezinhos. Qualquer movimento de Zelinda era uma festa no céu, me deixando extasiado, rezando para que o relógio da vida parasse, fazendo eterno aquele momento.


Não sei como aconteceu, mas apesar da pouca claridade, Zelinda conseguiu ver uma baratinha que se movia para junto de seu pé e, esticando a perna, a matou, mas quase fazia outra vítima, que a abracei com força, apertando mais os peitinhos, que felizmente ainda não deviam conhecer as agruras do sutiã. Depois do incidente, jurei por tudo o que é sagrado que nunca mais mataria nenhuma barata, nem deixaria que ninguém matasse perto de mim, fosse grande ou pequena.


Ficamos por quase meia hora sentindo a respiração um do outro, principalmente quando se ouvia os passos de algum procurador (Meu Deus, por que havia tão poucos?) e, à saída, pulei fora primeiro, para ajudá-la a saltar a beirada da manilha.


─ Foi muito bom. Eles não iam encontrar a gente nunca!


Disse ela e, para minha surpresa, com os olhos verdes de cigana, abaixou-se, mostrando mais um pouquinho dos limõezinhos, para colocar um beijo na minha bochecha risonha.


Foi mais uma noite sem pregar os olhos, pensando em Zelinda que, bem cedo, no outro dia, foi-se embora no carro com o tio, deixando para trás uma imensa saudade.


E, aí, conhecendo a verdade, nunca mais pude deixar de concordar com os rapazes.


Eles tinham razão. É de fato a melhor coisa do mundo mesmo.


Jrfontes, 08.01.20

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