• Joaquim Rubens Fontes

A sorte do Daniel



− Não lembra não? Da dona Celuta? Professora de canto e modista? Desenhava o vestido das noivas e depois ia cantar para elas no altar, na hora da festa. Uma figura muito querida.


Até podia ter conhecido, mas não me lembrava mesmo. Estava indeciso.

− Pronto! Era a mulher do doutor Eusébio Malutti, o dentista que tratava dos dentes de todo o mundo.

− Pois é! Devo ter conhecido sim, mas a memória...


− Tem importância não. É que me encontrei com a sobrinha dela, em Belo Horizonte, e fiquei muito triste ao saber de sua morte.


− Mas morreu...


− Ah! Estava bem velhinha e ficara bastante abatida com a perda do marido. Parecia uns vinte anos mais do que realmente tinha, quando a encontrei no médico, há um ano mais ou menos, em Belo Horizonte.


Se não me lembrava do cara, muito menos de sua morte, ainda que fosse para lamentar.


− Foi uma pena! Era um casal muito querido. Morava num apartamento em cima da sapataria do Edu, na Benedito Valadares, onde tinha também o consultório.


Vendo que nem assim eu me lembrava, continuou a história.


− Viviam tranquilos, ele com o consultório, ela com as alunas de música e de corte, pareciam muito sossegados. O engraçado é que não eram os clientes que marcavam as consultas. Ele é que telefonava, lembrando da revisão e ele mesmo marcava o dia e a hora. Em caso de emergência, a qualquer hora, era só ligar para ele, que dava um jeito. Cancelava outro tratamento, esticava o horário, mas ninguém saía sem atendimento.


− Bom assim, a gente não precisa marcar.


− O gozado é que detestava jogo, qualquer tipo de jogo, nem queria saber de futebol, nunca jogava nada, mas um dia o Daniel Boasorte, o cambista, que lhe devia uma grana, deixou um bilhete na mesa do consultório. O doutor Eusébio mandou chamar, para devolver, que não gostava de jogo, tinha aversão, mas o cambista não apareceu. De noite, saiu o resultado: o doutor Eusébio tinha ganho oitocentos mil cruzeiros. Uma fortuna! Aí, nem pensou em devolver. Comprou uma casa na rua Otávio Soares, com quatro quartos, e eles nem tinham filhos. Montou o gabinete no quarto da frente, com a aparelhagem toda moderna, fez uma oficina lá nos fundos, para preparar as próteses, e mobiliou o quarto maior para as aulas da dona Celuta. Ah! Comprou até um piano novo para ela. Virou gente importante, só andava de terno na rua.


− Já sei! A fortuna subiu-lhe à cabeça.


− Foi. Mas não durou nem três anos.


− Perdeu tudo!

− Exatamente. Virou sócio do Boasorte, jogava toda semana, e muito. Quando o dinheiro acabou e o consultório não dava mais para os gastos, foi-se endividando, tomando dinheiro dos outros, do banco, dos agiotas, de quem tivesse para emprestar. Quando viu que não dava mais para sair do buraco...


− Fugiu? Foi para onde?


− Deu um tiro no ouvido, deixando as dívidas todas para a dona Celuta, que não pôde pagar nem a metade. Entregou a casa, o consultório, o piano, os móveis. Foi-se embora para a casa da sobrinha e ficou até o mês passado, quando morreu também na pobreza.

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