• Joaquim Rubens Fontes

Achado não é roubado

Quem diz que os dias são todos iguais é porque nunca achou na rua um envelope cheio de dinheiro. Tivesse tido a sorte, ia mudar de opinião, quando visse a procissão de proprietários atrás dele.



Estou falando sério, é um verdadeiro inferno, como conheci outro dia.

Toda manhã, faço o mesmo percurso nas caminhadas, passando na volta pela padaria da Tavares Lira, para pegar o pão fresquinho e mais gostoso. Isso há muitos anos. Nunca tinha visto nada diferente, até a semana passada, que…

Digo logo: achei na rua, quase em frente à padaria, um envelope com muito dinheiro, que me deixou bastante indeciso. Coisa de instantes, segundos talvez. Como o infeliz do envelope estava aberto, ao acioná-lo com a ponta do pé, vi que era dinheiro de verdade, dinheiro de alguém, algum pobre coitado que, àquela hora, estaria lamentando o prejuízo. A vida é assim: sorte de um azar de outro.

Peguei, sem nenhuma intenção ainda. Achado não é roubado, até tinha boa intenção.

O problema foi que a moça da banca de jornal ali ao lado viu meu gesto e gritou para mim:

─ Sortudo! Ganhou o dia.

O que despertou curiosidade de muita gente. Se fosse só ela que tivesse visto… Mas não foi, que o moço que estava arrumando um balcão da padaria também viu e, ao lado dele, uns dois clientes. Sou um cidadão honesto e acredito na velha máxima de que a mulher de César tem de ser honesta e parecer honesta e eu também tinha de parecer honesto, afinal…

─ Graças a Deus, que o senhor encontrou. Não sei como foi me acontecer um desastre desses.

Era o primeiro proprietário, saído de trás da banca de jornais, que já me abordava, com a felicidade estampada no rosto de poder recuperar logo seu dinheiro.

- Graças ao bom Deus foi parar nas mãos de uma pessoa séria e honesta.

Quem custou a recuperar da surpresa foi eu, tentando entender a jogada do cara. De pequeno, meu irmão dizia que menino bobo é que acha dinheiro na rua. Devia estar certo, mas não sou menino mais e não gosto que me façam de bobo.

─ Tudo bem. Vamos resolver isso depois.

─ Depois, por quê? Acha que vai ficar com meu dinheiro? Que não vou precisar dele?

─ Não, que não quero o dinheiro de ninguém. Fui eu que achei, está comigo e vou devolver, mas apenas quando tiver certeza de quem é o legítimo proprietário. Me liga para eu saber o que vou fazer.

O mal do cara foi supor que estivesse lidando com alguém mais burro que ele. De pronto se via que vinha do lado oposto e não tinha nenhuma chance de ter deixado o envelope cair onde caiu. Foi o primeiro aborrecimento.

O segundo foi quase junto. Um motorista de praça estacionado quase ao lado, e que também pudera ver o lance.

─ Safado! Querendo ficar com meu dinheiro. Felizmente o senhor não foi na conversa, me salvou, muito obrigado.

─ Tudo bem. Deixei o telefone com ele, é só me ligar daqui a alguns minutos. Quero conferir, antes de devolver.

─ Ligar para quê? Para o senhor me devolver o dinheiro que é meu?

Já eram aborrecimentos de sobra. Mas agora era uma disputa com uma bela cambada de safados. Não ia ficar satisfeito de perder.

─ Veja. Quero ter certeza de que estarei devolvendo o dinheiro ao legítimo dono.

-Ah, o senhor então duvida que seja meu?

─ Não. Não é que duvide, é que não tenho certeza.

─ Sim, mas é meu mesmo. Pode ter certeza.

A essa altura mais duas pessoas haviam se juntado ao grupo e ganhei mais confiança.

─ Certo, então, me diga quanto tem, para a gente conferir.

O bandido do volante ficou vermelho, torceu a boca, mas não soube responder.

─ Sei lá. É a féria do dia, ainda não contei, não sei quanto tem.

─ Mais ou menos, então. Mais ou menos de dois mil reais?

Era uma margem bem larga, mas o cara não teve resposta.

─ Menos, claro! Ninguém faz mais de dois mil por dia.

Apenas folheando as notas vi que passava bem dos dois mil, logo…

─ Desculpe. Então não foi seu dinheiro que achei.

A essa altura, outras pessoas haviam se aproximado e sabiam do acontecido.

─ Ligue para mim, depois.

Todo o mundo já tinha meu celular, qualquer um poderia ligar. Ia ser eu contra o mundo.

E de fato muita gente ligou. Estava chegando em casa, quando atendi o primeiro proprietário, ansioso. Realmente merecia dó de ter perdido tanta grana.

─ Seu Francisco. É o Maia, dono do dinheiro que o senhor achou defronte a padaria.

─ Sei.

─ Dei sorte, que a menina da banca me contou que foi o senhor que tinha achado e me deu o telefone. Como é que faço para receber de volta?

Como tem gente esperta! Meu irmão tinha razão. Devo mesmo ter cara de otário, que qualquer um pensa que pode passar para trás.

─ Ótimo, sem problemas, então, seu Maia. Mas não gostaria de tomar a responsabilidade de fazer a devolução, não antes de ter certeza.

─ Porra! Está duvidando de mim, caceta! Acho que sou algum malandro? O senhor assim está me ofendendo.

─ Nada disso, senhor Maia. Nada disso. Só queria me livrar dessa embrulhada. Estou saindo para o trabalho dentro de meia hora e deixei o envelope na delegacia, aqui ao lado de casa. Fica mais seguro com a polícia e vai ser mais fácil para o senhor, é só passar lá e pegar.

─ Não mas tenho pressa, preciso pegá-lo logo. É meu, por que não pode me entregar?

─ Pois é, mas já deixei lá. E como estou atrasado para o serviço, até já chamei o Uber, não ia mesmo poder esperar. Pode ir à delegacia que o inspetor vai entregar sem qualquer burocracia.

Fui falando e desligando, mas voltou a ligar…

Foi o tempo de ver melhor o conteúdo do envelope: três mil e quatrocentos e cinquenta reais junto de um papelzinho anotado em cifras: mil, oitocentos e cinquenta reais mais mil seiscentos, somando três mil, quatrocentos e cinquenta reais. Com uma rubrica parecida com um R ou P, sei lá, eta letrinha desgraçada de ruim!

─ Sou eu, o Maia outra vez. Preciso de meu dinheiro, não posso ficar esperando.

Foi o bastante para me dar uma ideia, que depois funcionou com mais de oito ligações.

─ Certo! Não vai ter prejuízo nenhum não, seu Maia. Deixei lá com o inspetor Luís Carlos, na delegacia. Estava chegando e contei para ele. Tudo certo, a gente não quer prejudicar ninguém não. Só chegar lá, falar com ele e receber. Vai estar o dia inteiro na sala dele.

─ Mas o dinheiro estava todo lá, tudo certo? Senhor contou? Quanto tinha?

─ Deve estar tudo lá sim, que não mexi em nada.

─ Porra! Vou lá pegar então.

─ Tudo bem, vai sim. Mas, ah! Leva um documento com foto, para se identificar, para o inspetor conferir.

─ Conferir com o quê?

─ O dinheiro não era para pagamento da prestação do carro? Se a nota fiscal está junto.

Santo remédio! Uns dez chatos perderam a esperança, mas…

Não tinha mais paciência para continuar me aborrecendo com aquela brincadeira. Minha intenção era voltar defronte à padaria e jogar o envelope todo lá mesmo e pronto! Ficava livre.

Foi antes do almoço, que ligou uma senhora desesperada. Não conhecia, mas se identificava pela voz chorosa.

─ Alô. Seu Francisco? É a Lucia Helena, dona do dinheiro. Pelo amor de Deus, estou desesperada. Me diga que não entregou o dinheiro para ninguém, que era da mensalidade da escola das crianças, minha Nossa Senhora!

─ Então era da senhora? Quanto tinha, a senhora se lembra?

─ Claro que lembro! Se era para pagar a mensalidade do colégio de minhas filhas. Mil, oitocentos e cinquenta da Telminha mais mil e seiscentos do Arturzinho. O Rodolfo sempre põe a conta junto, para eu não errar.

Meia hora depois encontrava com ela na porta do colégio. Não conhecia, só de vista, passeando com o cachorro na minha rua. Ficou amiga.

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