• Joaquim Rubens Fontes

Amigo urubu

AMIGO URUBU


Voltara exausto do enterro. E com tanto calor, não tinha ânimo para nada. Paciência!


O pior é que, mesmo com todo o abafamento, não parava de tremer (nervoso?), encolhendo-me dentro das roupas. Ia somente comer alguma coisa para descansar um tempinho na cama. Mas comer o quê? O que teria para comer? Carne até que tinha mesmo um pedaço muito preto na geladeira, mas ia precisar cozinhar uma xícara de arroz, fazer a farofa e talvez até esquentar o feijão, e não se sentia disposto a tamanho sacrifício. O corpo não ia aguentar. Não ia mesmo. Melhor comer apenas um pedaço de pão com margarina, tomar um resto de refrigerante e ir deitar para esquecer da vida.


Estranho é que, com todo calor, continuava tremer e bater o queixo. Estava com febre, sem dúvida nenhuma, mas também não ia procurar nenhum termômetro, nem ver um comprimido para tomar. Não ia achar nada mesmo na gaveta dos remédios. Pronto! Mal fora enterrada e a esposa já começava a fazer falta. Ia ser assim para o resto da vida.


O pessoal todo entrou em pânico por toda parte com o fracasso das vacinas. Sem vacina e sem remédio para tratar...


Foi quase o mês todo com aquela gripezinha enjoada, a tosse seca que não cedia e não achava prazer de comer nada. Tudo sem gosto, horroroso. A gente já tinha perdido o caçula, que trouxera o vírus da escola e, quando foi internado, ela e a filha não saíam de lá, de perto do doente. Daí...


A menina foi primeiro. Mal entregou o irmão a Deus, apareceu com os mesmos sintomas, e não teve médico nenhum que desse jeito. Foi depressa, a gente sentiu.


Depois foi a vez dela, da mãe, então e ninguém pôde fazer nada, que tinha a diabetes e a pressão muito alta. Nenhum hospital pôde socorrer, todos lotados e com deficiência de médicos, de pessoal e de recursos. Só conseguiu fazer o exame do Coronavírus, que comprovou o mal, com o enfermeiro dizendo que estava bastante avançado. Tinha nenhum recurso mais não, só se encontrasse uma cpi, mas onde?


Em casa, à noite, parecia um pedaço de pau, sem ânimo para nada, esticada na cama, sem comer e reclamando do frio. E eu sozinho para cuidar dela e fazer tudo, logo eu que não entendia nada de casa nem de cozinha, não sei varrer um quarto, foi uma áfrica. Felizmente morreu logo, descansou uma noite, sem incomodar ninguém ver.


De manhã, foi nova guerra. Nenhuma casa quis receber o corpo, não podia fazer velório, tinha de cuidar do sepultamento sozinho. O jeito foi sair pela rua procurando ajuda, até contratar um funcionário demitido do hospital, que pediu mil reais adiantados para dar uma mãozinha, mas ele sabia do trato. E já começou tirando e guardando no bolso a aliança e os brincos da morta, que não tinha mais nada, pulseira nenhuma. Mandou que ficasse esperando, enquanto tomava algumas providências, prometendo voltar dentro de menos de uma hora. E voltou mesmo, ajudando a puxar um carrinho de burrinho sem rabo e dizendo que os cemitérios todos estavam lotados e não aceitavam mais corpos.


─ Só estão enterrando no alto do Morro Azul e temos de levar para lá depressa.

Assustei com a solução, mas não podia fazer nada. E pelo menos era perto.


Tocamos para o Morro Azul, e felizmente eram três para empurrar o carrinho morro acima. Deu certo, que encontramos dois caras à beira do buraco cuidando do enterro de um menino, cobraram mais quinhentos reais e voltaram logo para dentro da vala, a empurrar os cadáveres até fazer espaço para colocar o corpo de Valmira, minha esposa. Sem qualquer cerimônia, ajeitaram o volume junto aos demais, perguntando apenas se não queria dar uma última espiadinha na cara dela. Aceitei quase por obrigação, que Mira estava muito feita, toda arroxeada, com os olhos arregalados e a boca torta, como se quisesse sorrir.


Após a cerimônia, os coveiros esticaram uma lona pesada acima dos mortos, explicando com conhecimento:

─ Para os urubus não atacarem.


Na casa vazia, à volta, depois de comer o sanduíche, minha vontade era tomar um banho demorado e descansar bastante. Não sei porque essa mania da gente sempre querer as coisas mais difíceis.


Tirei os sapatos e deitei na cama junto à janela sem fechá-la, para ter um pouco de ar.

Estava esgotado, mas sabia que não ia dormir. Pela janela, via a praga dos urubus voando em cima do morro, prontos para atacar a lona e pegar os corpos mais recentes.


E eu sozinho, sem ninguém para conversar ou me pegar um copo d’água. Nem os santos no oratório pareciam querer nada comigo. Era aguentar firme o frio, a falta de ar, o desconforto da cama e o medo de ir para o outro lado.


Não queria nada é com os desgraçados dos urubus.

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