• Joaquim Rubens Fontes

As catadoras de lenha

Atualizado: Abr 16



Era muito alto, forte, vermelhão, com uma barba comprida, um nariz bem grande e a fala misturada. Seu Albino Salin era libanês, mas bem ambientado no Brasil, onde chegou ainda jovem, se casou, constituiu família – um casal de filhos já casados e soltos no mundo, fez muitas amizades e, bom comerciante e muito econômico, pôde comprar um pequeno sítio à saída lá da cidade, para onde se mudou com a família e acabou de educar os filhos. Tinha amizades sim mas, amigos amigos, negócios à parte.


Do sítio, tirava algum milho – umas dez sacas para as vacas, um pouco de café, muitas frutas, verduras, meia dúzia de litros de leite por dia e lenha para o fogão. Sim, só havia os fogões de lenha naquela época.


O primeiro aborrecimento do simpático turco foi ver, uma tarde, duas mulheres subindo a estrada da matinha, para buscar alguns galhos secos para o fogão. Um absurdo! Um roubo.


Mesmo sem conhecer as visitantes, imaginava que deviam ser de algum canto de rua por ali perto mesmo, umas preguiçosas, que não queriam andar mais um pouco e ir procurar lenha na capoeira do Fundão, onde todo mundo pegava. Se toda a cidade viesse pegar lenha na sua matinha, ia acabar com tudo. Deus me livre e guarde.


Mas, homem pacífico, não quis brigar com as mulheres. Preferiu mostrar o desagrado, fazendo uma cara de bravo e esperou que as invasoras compreendessem a repreensão e cessassem com aquele roubo. Não pararam. O jeito foi pegá-las uma tarde na descida e cobrar-lhes o valor da mercadoria ilicitamente extraída.


Mais uma providência inútil.


Pior. O grupo rapidamente se multiplicou e, agora, em vez de duas, eram cinco as catadoras de lenha. Sentindo-se roubado, ferido no ponto mais sensível do coração, o turco decidiu tomar uma decisão mais drástica. Meteu um cadeado na porteirinha da entrada, julgando que entendessem o recado e o problema estivesse superado.


Outra vez a providência não deu resultado. Como diz o velho provérbio, água pro morro abaixo, fogo pro morro acima, e mulher quando quer levar lenha, ninguém segura. As mulheres nem tiveram que pensar muito, arranjaram um pedaço de pau, que puseram entre dois arames da cerca, e entravam tranquilamente. Na volta, jogavam o feixe de lenha para o outro lado e passavam lépidas e fagueiras.


Seu Albino ficava cada vez mais triste, pensando até em ir à polícia ou vender a propriedade e voltar para o comércio na cidade.


Veio da mulher, dona Rosina, a sugestão que parecia salvadora.


- Por que não solta os cachorros mais cedo, para tomar conta da porteira? Ninguém vai querer enfrentar os animais.


Pois não é que o lamentoso sitiante de fato tinha três valentes dragões na fazenda, mas que só costumava soltar à noite, depois do jantar? Aquela tarde mesma botou os bichos no terreiro, já no começo da tarde. As mulheres levaram um susto e a medida parecia ter dado certo. Com medo das feras, as roubadoras de lenha desistiram de passar, pelo menos na primeira semana, mas, depois... Como precisavam atender à necessidade de lenha para cozinhar, trataram de conquistar a amizade dos animais à base de pedaços de carne, restos de comida e bons tratos, e voltaram à rotina, para abastecer o fogão.


Mais uma frustração para seu Albino. Que não pensava noutra coisa.


Foi a conselho do genro e de alguns amigos, que o operoso sitiante procurou a polícia, pedindo providências da autoridade para coibir aquela desapropriação. Expôs calmamente a situação ao capitão chefe do posto policial, mas ouviu dele que a guarnição era reduzida, não podia fazer nada, por falta de elementos suficientes para isso.


- A tropa é pequena, cinco homens apenas, não dá para oferecer proteção a todo o mundo que solicita. Sinto muito.


Aborrecido com o problema, o sitiante já nem dormia, pensando em vender o sítio e voltar ao comércio.


A solução, sugerida pelo capitão do posto, era para contratar vigilantes para cuidar da porteira, mas tinha duas desvantagens: o custo dos guardas e onde arranjar homens que não se deixassem seduzir pelas ladras de madeira, cujo grupo, agora, passava de oito.


Completamente derrotado, o pobre homem desistiu de impedir o acesso às catadoras, preferindo fazer vista grossa, mas cometeria uma injustiça à inteligência do libanês, quem julgasse houvesse desistido de lutar. Não, seu Albino não entregaria os pontos, iria até o fim. Não veio do Líbano para trabalhar tanto, sofrer tanto para se deixar ser roubado por uma cambada de vadias.


Foi numa tarde de garoa bem triste, às vésperas da fogueira de São João, que o herói resolveu reagir.


Sentado à varanda de casa, ficou longo olhando a chuvinha e assistindo à festa das catadoras, subindo a estradinha para juntar os feixes de lenha e descer, depois, cantando alguma toada bem alegre. Contou uma a uma as inimigas: exatamente quinze. Mas tinha de enfrentar, tinha de pôr à prova seu valor.


Escurecia já quando as vitoriosas devotas de São João desciam a estradinha em retirada.


Uma longa procissão, cada uma com o feixe amarrado à cabeça, com certeza pensando na festa. Foi na última curva, quase na porteira, que viram a assombração: seu Albino, de quase dois metros de branca nudez, com a grande barba espalhada na face e todos os instrumentos à mostra, surgiu de trás de uma árvore, correndo para elas.


Foi uma gritaria só, um Deus nos acuda. Cada uma tratando de se desvencilhar imediatamente da carga que levava, para fugir sem saber para onde, com medo da terrível fera.


Dizem por lá que até hoje tem mulher desaparecida na matinha, com medo de voltar para casa e ter de passar pela porteirinha.

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