• Joaquim Rubens Fontes

Befigol

Atualizado: Mai 4

- Difícil arranjar um pretexto para faltar ao jantar da posse do Jarbinhas na agência de notícias. Sempre fomos muito ligados, vibrei com a nomeação e sinceramente queria ir à festa, estava animado, até pedira a minha mulher que mandasse repassar a camisa, deixasse tudo preparado, mas... Quando a dona Lígia veio convidar, disse que seria um jantar reservado aos amigos mais chegados e que o filho fazia questão de minha presença.

- Vai ficar muito feliz e o senhor vai gostar de minha bacalhoada.


Foi a gota que fez transbordar o copo! Se não como bacalhau de jeito nenhum, o que é que tinha a fazer no jantar? Tive de inventar a desculpa na hora e peguei pesado.



- Grande! Tenho certeza de que vou adorar. Vou pedir a Ruth para ir sozinha buscar a mãe dela no aeroporto, que chega exatamente na sexta.


Nessas horas, vale até apelar para a sogra, para não ter de comer bacalhau. Seria a negação de meu passado. Não vou esquecer dos sofrimentos que me causou.


Minha infância foi tranquila e feliz, no casarão do Casca, lá no fundo dos rincões de Minas. Era uma construção com pé-direito alto e a frente bem larga, com a entrada de nossa casa, a da casa de minha irmã e ainda três portas para a venda de meu cunhado, que tinha toda espécie de gêneros, inclusive toucinho e carne seca, bebidas e cigarros. Internamente, eram dois pavilhões, um para cada família, separados por um jardim, disputado pelas mulheres. Havia muita samambaia, rosas, violetas, antúrios, cravos e flor-de-seda. Minha irmã, à época, tinha apenas dois filhos, de cinco e três anos, que ainda não estavam na escola e passavam a maior parte do tempo brincando com a gente no quintal.


O que marcou mais, porém, sei lá por que, coisa de criança, foi um remédio.


Quando foi à cidade fazer uma consulta, Telinha sempre estava grávida, resolveu levar os filhos, que pareciam atacados de alguns vermes. Após examinar a mãe, fazer uma boa consulta, o médico passou aos meninos, sem descobrir nada. Achou apenas que o Felício, o mais velho, estava um pouco magro, precisando ganhar algumas carnes, e, como a mãe denunciou sua inapetência, receitou-lhe Befigol, um tônico novo, recomendado para o caso do pequeno cliente.


− Uma colher de sopa antes das refeições vai fazer-lhe muito bem. Sentenciou.


Se era inapetente para comer, para tomar o remédio Felício era teimoso, pirracento, um caso difícil. Para convencê-lo a aceitar o medicamento, minha irmã ou sei lá quem inventou uma musiquinha – Befigol, gol-lá-ra-lá-lá-lá, que rapidamente se tornou um grande sucesso na parada musical da família, matando de inveja os outros meninos que não tomavam o Befigol. Eu, meu irmão e o Cides, tio do Felício por outra parte. A gente não tomava o Befigol, nem podia cantar a musiquinha. Dava muito castigo a invasão da seara alheia. Sei que rezei muito, fiz até promessa para ficar doente, de uma doença bem grave, para tomar um vidrão de remédio. Ah! Bobagem. Quando estive doente, papai aplicou uma injeção, que doeu demais e ainda brigou porque chorei.


- Menino mole, seu! Não aguenta nem, uma injeção. Não é homem não?


Sei lá se o Felício melhorou com o remédio, se ficou forte, que eu nem tinha capacidade de julgar. Mas deve ter melhorado sim, que cresceu, estudou, casou e deu muitos remédios aos filhos. Sei também é que, pouco depois, mamãe também teve de ir ao médico por um problema lá dela e me levou à cidade com meu irmão, para uma consulta com o doutor Fortes, para ver o avanço dos vermes, e a gente ganhou um vermífugo horroroso, para tomar em jejum, que arrasou com nossa moral. Em compensação, o médico passou um tônico, num vidro cor de vinho, de quase um litro, com um rótulo muito bonito: um pescador levando às costas um grande bacalhau, quase de seu tamanho, produto de muito trabalho, era a famosa Emulsão de Scott, que marcou a infância das crianças de minha geração.

Por mais de uma semana, ficamos de dieta por conta do vermífugo, sendo chamados de lombriguentos pelas irmãs e os outros meninos, não podia haver humilhação maior. Era bullying sim, agora tenho certeza que também sofri esse negócio de bullying. E curtindo a vontade de experimentar o tônico, que ia nos fazer fortes e poderosos. Era nosso grande sonho. Para acalmar a gente, depois de alguma briga ou algazarra, mamãe nos deixava pegar no vidro, que ainda estava fechado. Mas só pegar e ficar olhando com muito cuidado o líquido branco, balançando no interior. Devia ser gostoso demais, um mingau bem ralinho, com sabor de doce de leite!


Foi assim por mais de uma semana, até o grande dia, quando papai abriu solenemente o frasco, pôs na colher e nos deu a tomar: horrível! Que decepção! Não descia nem com água, nem com um pedaço de rapadura. E tinha quase um litro para tomar, sem choro nem música. E, pior, meu irmão, que era mais rebelde, trincava os dentes, recusando engolir o xarope, não tomava por nada neste mundo, e eu, que sempre fui mais bobo, mais cordato, tinha de tomar tudo.


Ninguém compreendia nosso problema, fez qualquer musiquinha para a gente, eram só ameaças e castigo. E toda hora que passava no corredor ainda tinha de ver o desgraçado daquele vidrão enorme, cheio de óleo de fígado, que não acabava nunca, exposto na prateleira do guarda-louças. Foi, então, que jurei nunca mais comer peixe, nem que morresse de fome.


Pois é. Só uma vez tive de quebrar o juramento na Bahia, que me obrigaram a provar uma tal de moqueca. Tudo bem, provei, elogiei o prato, agradeci com um sorriso, para não ter de comer mais. Mas quanto ao bacalhau, nem pensar. O bacalhau que fique pra lá, nas costas do pescador, que eu não quero ver nunca mais.


Sofrer mais, só quando o médico receitou uma caixa de injeções de bismuto, que o papai mesmo aplicava, e doíam tanto que até faziam lembrar o sofrimento de Cristo na cruz.

Rio, 17.08.17

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