• Joaquim Rubens Fontes

De espantar neném


Não posso dizer de onde veio a peça, que assim como chegou desapareceu. Deixou poucas saudades.


Acho que veio mesmo do Mato Grosso, antes da divisão, que ainda era um estado só. Quanto ao nome, ou ao apelido, ninguém tinha dúvida, que tudo parecia bem explicado, ele próprio confirmava. Criado na fazenda, cuidando do gado, Boizão sempre se julgou dono do melhor animal. O melhor boi, o maior e o mais caro.


─ Ninguém discute, meu boi é o melhor. Pode procurar por todas as fazendas da região.


Daí acabou ganhando o apelido. Ficou Boizão e pronto! Para o resto da vida.


Gente boa, mas muito convencido, metido e presunçoso. Apareceu na cidade sem conhecer ninguém, para trabalhar na coletoria estadual, nomeado por algum deputado sei lá de onde, e desfilava com pinta de muito importante, rico e poderoso. Era alto funcionário do estado. E sabia tudo, conhecia tudo. Só não era bonito, nem simpático, que isso ele não era mesmo não. Mas a gente gostava dele assim mesmo, se acostumou e nem ligava para a figura. Era moreno forte, bem magro, de rosto fino, olhos castanhos e tinha qualquer coisa errada na boca, um pouco torta do lado direito, acho que por algum problema no maxilar inferior. Ou pelo peso da bola do nariz, que parecia no lugar errado. Não fazia grande sucesso com as mulheres, mas sempre tem um sapato velho para um pé doente, e Boizão se arranjava, se dava bem. A mais certa era Gilda, gente boa, menina de família tradicional, classe média, muito religiosa, professora da escola municipal que, apesar de modesta, sabia se apresentar e agradava. O namoro pegou, ia durando e todo o mundo torcia pelo seu sucesso, mas o namorado ainda não estava preparado para se casar.


─ Preciso comprar uma casa, mobiliar, para dar tranquilidade à família.


Problema dele com a Gildinha, ninguém ia discutir, mas a cidade inteira acompanhava, vendo-os sempre juntos, ele almoçando com a sogra todo domingo e contando muitas façanhas.


─ Casar que é bom...


Boizão sempre se justificava.


─ Minha hora vai chegar.


Mas não chegava nunca.


Foi na inauguração da ponte Milton Campos, sobre o rio Todos os Santos, que cortava quase toda a parte central da cidade, que a prefeitura resolveu fazer a maior comemoração, aproveitando a data do aniversário da cidade. E falou em festa, a mineirada toda logo se assanhou. Era uma oportunidade de engomar o vestido novo, tirar o terno preto do armário, se comprar uma camisa nova, uma calça, uma bolsa da moda, se o dinheiro desse, e um vestido melhor para a mulher, sapatos e não sei mais o quê para o resto da família.


Pela programação das solenidades, preparadas pelos responsáveis pela festa, após a inauguração da ponte, com missa celebrada pelo bispo diocesano, houve o show na praça Tiradentes, com a apresentação de uma famosa artista do rádio (que saudades da Elizete Cardoso, oh peste de mulher para cantar bem!), contratada com muitos meses de antecedência. Foi aí que a festa esquentou.


E a prefeitura nem pensou em economia, que a estrela – a Divina, fez o maior sucesso, como já se esperava. Cantou por mais de duas horas, levando os admiradores ao delírio. Principalmente quando girava o corpo e balançava a varanda do segundo andar. Bem morena, de cabelos compridos, olhos negros, num vestido muito bonito, mostrando tudo o que a natureza lhe dera e a rapaziada queria ver, foi uma felicidade geral. Um sonho de mulher!


Depois, para encerramento da festa, houve o baile de gala, no melhor clube da cidade.

O salão encheu cedo, mesmo com os ingressos e o aluguel das mesas a preço de ouro. Só para ricos mesmo. Fui com a mulher, mas quase não dancei, e até hoje lamento os gastos feitos. Quem aproveitou e dançou muito foi o Boizão. E dançava comum profissional. Dançou com a noiva, a Gildinha, muito tempo, com a sogra, que seu Jasmindo estava com uma artrose braba no joelho esquerdo, que não o deixava se levantar da cadeira. Ficou tomando o cuba-libre lá dele o tempo todo e conferindo o rebolado das mulatas, que devorava com os olhos. Mu ita falta de vergonha do velho sem juízo. As coisas passam, mas a vontade fica.


O que irmporta, porém, foi que o Boizão chamava a atenção, dançando com desenvoltura, paços largos, balançando muito a cintura e puxando a companheira. Foi assim até a chegada de Maria do Céu, a Miss Minas Gerais, atraída de Belo Horizonte, que fez parar a dança e a orquestra elevar o tom. A bela dama foi chegando e entrando no salão e, levada a dançar pelo prefeito, depois pelo secretário e muita gente importante, ou que se julgava importante. Devia ter até fila para pegar a vez. Mas era bonita de verdade.


Encantado com a estrela, Boizão não tirava os olhos dela, quase apaixonado, esperando sua vez. Não sei se a Gildinha percebeu, mas...


Acredito até que foi a insistência dele que a alertou para o fato, que a diva também o notou. Olhou uma vez. Duas. Uma porção de vezes. Daí Boizão se animar, para tentar um flerte mais longo, ganhando de volta um largo sorriso.


─ Ganhei! Não é possível!


Ainda esperou um pouco, confirmando o interesse da grande estrela. Foi até receber mais um sorriso aberto e ter certeza de que tinha alguma chance na parada.


─ Não vou perder uma oportunidade dessas.


O problema era a noiva e os pais dela. Precisava dar um jeito de se livrar daquela gente toda, e só via uma forma. Mas sabia como fazer. Esperou o intervalo da música, quando parou de dançar e levou a menina para a mesa, antes de ir à toalete. Ficou uns quinze minutos se ajeitando, consertando a roupa e o penteado, antes de voltar, queixando-se de uma indisposição, tremenda dor de cabeça, dizendo até ter vomitado no banheiro, não dava para ficar mais.


─ Se os senhores quiserem continuar no baile... Vou pedir licença para retirar


Um problema! Tantos gastos com roupas, sapatos, bijuterias, para ficar apenas uma hora no baile. Mas ninguém protestou.


─ Que isso? Vamos todos com você.


Em pouco tempo, Boizão meteu a família toda no carro e levou para casa. O mais difícil foi se livrar da insistência da sogra depois, que tentava fazê-lo tomar uma porção de carqueja ou bicarbonato, queria que repousasse um pouco na cama do quarto das visitas, preocupada de vê-lo voltar sozinho para a república, onde não iria encontrar ninguém que cuidasse dele.


Não conseguiu convencê-lo, foi-se embora sozinho mesmo.

Meia hora depois, entretanto, estava de volta ao baile. Passou pela toalete para ajeitar os cabelos mais uma vez e esperar o fim da música, antes de retornar à mesa.

E veio um bolero bem lento, depois. Muito doce, apaixonado.

Sem perda de tempo, Boizão correu a tirar a Maria do Céu para dançar, com medo de que alguém o furasse, levando-a para o centro do salão. E pôs toda sua ginga na música, balançando mais que a dama. Mas que dançava muito bem, isto é verdade. E ainda esperou alguns minutos, antes de poder olhá-la de frente, pronto para o ataque, para fazer a declaração que ensaiara na volta. Ia jogar tudo.


Pois é! Ela porém foi mais rápida. Fixando-o com olhos bem abertos, interrogou:


─ Vem cá! O que você tem, que é tão feio assim? Foi alguma doença de criança?


Assustado com a rejeição, Boizão não contemporizou, empurrando-a grosseiramente para longe, fazendo com que fosse cair sobre a mesa de outra família que, revoltada se levantou para cobrar satisfações ao atrevido, ao tempo que os seguranças da estrela chegavam para defendê-la.


A música parou de repente e todos se voltaram para o brigão, que, irritado, xingando muito, queria bater em todo o mundo. Acabou convidado a deixar o salão e foi quase arrastado pelos seguranças da artista.


Não sei a explicação que tentou com a noiva, olhada com piedade por toda a cidade, principalmente depois que o jornal local relatou a ocorrência. Sei que, quando o encontrei, anos depois, em Paracatu, no norte do estado, não tive oportunidade de perguntar, mas, com mil desculpas, agora posso afirmar com certeza que a artista tinha razão sim. O cara era feio demais mesmo. De assustar neném.

Rio, 24.09.19.

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