• Joaquim Rubens Fontes

Depois do Natal

Chegou aos seis anos sofridos e desesperançados, sem conhecer muito mais da vida que a inflexível crueldade do padrasto, o relaxado abandono da mãe e umas poucas letras maiores, que sabia desenhar mal e porcamente.


Na escola, de fato, até obteve a matrícula, mas não gostava da professora, cheia de preconceitos e afilhados, nem de alguns colegas idiotas, com aquelas brincadeiras inconvenientes, que estavam sempre a humilhá-lo, chamando de macaco safado sem-vergonha e passando a mão em sua bunda magrela, e foi desligado logo, pelo excesso de exaustivas faltas.


Também se a escola era longe, não podia ir sozinho nem havia quem levasse...

─ Até que queria continuar frequentando o colégio. Tinha umas coisas bem boas também, foi uma pena ter sido mandado embora. Gostava da merenda, das histórias da professora e de brincar com alguns colegas que não judiavam dele, mas não dava para cuidar da lenha toda antes do almoço, tomar banho correndo, lavar as orelhas, botar o uniforme, que nunca achava no lugar, calçar as sandálias e pegar os cadernos, era muito apertado, sempre acabava chegando atrasado, tinha de perder.


A maior alegria de Ramiro, na verdade, era jogar bola com os meninos da rua, dar alguns dribles neles e gostava de fazer gols, queria ser artilheiro. A mãe uma vez até chegou a prometer um par de chuteiras, mas sob condições.

─ Se proceder direitinho, fizer o serviço bem feito e não desobedecer mais a seu pai, quando o Papai Noel passar vou pedir uma chuteira para você.


Prometia por prometer, como fazia com as outras coisas, que não tinha nem dinheiro nem intenção de cumprir. Tanto que a promessa ficou esquecida, e nunca mais foi cogitada.


Acreditava na mãe - só tinha medo quando batia mais forte e puxava as orelhas, que aí doía de verdade, acabava gritando e apanhava mais – mas já havia ouvido falar sim no tal Papai Noel, que era um cara bem legal, até tinha visto uma vez na porta da venda, queria ir falar com ele, mas a mãe não deixou.

─ Falar o que com ele? Quer saber de menino pobre não, só liga para gente que tem dinheiro. Tem mais é que fazer o serviço direito e não ficar reclamando tanto por aí.


Seu serviço era rachar a lenha que pegava na matinha, cortar os pedaços, levar para a cozinha, arrumar bem direitinho embaixo do fogão, e ajudar o padrasto a limpar e engraxar os sapatos dos clientes. Ah, tinha de ir à venda também, era perto, mas só quando a mãe mandava buscar um quilo de feijão ou de toucinho, e sempre acabava apanhando por errar no troco, que não conferia, ou por não saber comprar direito. Uma desgraça! Não era bom não.


Ver televisão? Até gostava, mas só podia ver quando a mãe deixava e o aparelho queria funcionar, a antena pegava bem, a imagem aparecia, mas às vezes ficava tão fraca, tão sumida como a carne da janta. E a culpa era sempre dele, que não sabia ligar direito, não parava de mexer nos controles, ia acabar quebrando. E como apanhava!


Mas quando o padrasto ligava para ver o futebol era bom demais, podia ficar torcendo com ele, gostava do Flamengo também. E se a mãe deixava ver a novela junto com ela, não perdia um minuto, só que o padrasto não gostasse, se chegasse na hora, visse os dois diante do aparelho, disparava a berrar e a distribuir porradas, arrebentando todo o mundo. Era um pânico geral. Tinha de correr para se esconder fora de casa.

─ Ficam os dois aí só na malandragem, gastando a força que está muito mais cara, para ver essas besteiras de mulher chorando, como se eu fosse o dono da Light, não me importasse com o dinheiro que estão jogando fora. Será que não têm nada mais importante para fazer em casa, não? Lavar a privada, por exemplo, que está fedendo muito? Varrer o quintal?


Talvez nem tivesse mesmo, que ela cansou de apanhar grosso por bobagens, ninguém entendia. Era porque o feijão não estava bem cozido. Ou sem sal. Não pusera a cerveja na geladeira. Esquecera de passar sua camisa. Isso quando tinha motivos, que o normal era bater mesmo sem motivos. Só para exemplar, como dizia.


Uma manhã acordou com o movimento estranho junto da cama.


Custou a compreender a razão de tanta latomia, sem ninguém para explicar. Uma gente esquisita entrando e saindo de casa, tinha até um soldado, num falatório danado de nervoso. Só foi saber o que se passava quando quis falar com a mãe e não deixaram entrar no quarto. Ainda perguntou pelo padrasto, mas responderam que havia fugido, que a polícia estava atrás dele para prender.


A única coisa que entendeu direito do tumulto todo foi quando disseram que ia ficar morando com o tio – seu Estêvão – irmão do padrasto e muito mais nervoso e castigador. Principalmente quando chegava bêbedo. Aí era um desastre! Pronto! Estava perdido de verdade, não tinha mais jeito!


No começo, porém, até que foi bom, estava gostando. Deixaram continuar dormindo na sala, perto do sofá, não fizeram trocar de lugar. Só era castigado quando molhava a cama, ou chorava de noite, que aí... Quanto ao serviço, só viu mudar a quantidade de lenha que tinha de rachar, o número de sapatos para engraxar e a tia botou para aprender a passar roupa, para ajudar nos serviços de casa. Coisa pouca, com certeza. Da escola...

─ Que mané de escola merda nenhuma! Vai aprender o que lá? Estudo é para filho de gente rica.


Das chuteiras que queria, ninguém nunca falou nada.

─ Só isso que você quer? Manar na gata você não quer?


A comida também piorou muito, que a tia não entendia nada de fogão e tinha de fazer tudo correndo, que pegara umas faxinas fora, para ajudar nas despesas.


O que de fato aumentou mesmo foi a responsabilidade. Agora era culpado por tudo de errado que acontecia com a família, qualquer copo que quebrasse, alguma lâmpada que queimasse, os defeitos da TV, os estragos que apareciam em casa, na parede ou nos móveis. O pior era que, quando não aguentava segurar a bexiga, tinha de ficar várias noites dormindo nos lençóis molhados, fedendo demais.


Não entendia nada de Natal. Sua mãe que prometera as chuteiras nunca falara nada disso, mas acabou ouvindo algumas histórias na sapataria, que era dia de festa, todo o mundo querendo ficar mais arrumado para receber o Papai Noel, que trazia os presentes. Até chegou a se animar. Esperou a famosa noite cheio de ansiedade, se aprontou também, mas só recebeu decepções. Não ganhou nada, nem um abraço, e ficou sem saber por quê.


Devia ter continuado calado, mas não soube se segurar por muito tempo e foi perguntar à tia, ao chegar da faxina.

─ Pedi um par de chuteiras pro Papai Noel.


Admirada das pretensões do garoto, a faxineira não fez por menos.

─ Devia ter pedido outra surra, pra criar vergonha nessa cara. Querendo dar uma de menino rico. Bobo demais!


Custou a entender a resposta. Não queria perder a única esperança da vida, mas...

─ Por que? Papai Noel...?

─ Que Papai Noel merda nenhuma. Deixe de ser idiota, já tem tamanho. Tem nada disso não. Só quando a mãe pode e quer dar um presente ao filho que diz que foi o Papai Noel. Se não pode...


Duro aceitar o desgosto, perder a última esperança, ficou a mastigar a língua.

─ Quer dizer então, pelo que está dizendo, que o Papai Noel não existe? Pois se eu mesmo vi na frente da loja do seu Salin.

─ Sei. Mas viu mesmo? Viu a cara dele? Não descobriu que era seu Irineu relojoeiro fantasiado daquele jeito de palhaço para tirar retrato com a garotada? Não dava nada a ninguém não, só tapa na bunda das crianças, o sem-vergonha.


Pois é. Sem a mãe. Sem o padrasto. Sem a escola. Sem o Papai Noel. Sem as chuteiras. E sem esperança.

─ É. Só sobrou coisa ruim pra mim no mundo mesmo.

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