• Joaquim Rubens Fontes

Marido é meu

Rapaz, veja lá, respeito é bom e eu gosto.


Aprendi em casa com mamãe a respeitar os outros e jamais iria faltar com a educação, especialmente com uma senhora casada e ciumenta. Mas não mesmo. Nem eu nem meus irmãos. E era por respeito mesmo, nem precisava dessas leis todas que tem hoje.


Mineira da roça, do matão bravo, com uma imensa prole, metade já criada e outra metade por acabar de criar, muita religião, mamãe tinha a família sob rigoroso controle, na rédea curta mesmo, e sabia educar os miúdos com conselhos e chinelo. De fala mansa, severa e carinhosa, uma mulher de muita moral.


Falei que a gente era da roça e era mesmo. Da roça pesada, lá do fundo dos rincões das Minas Gerais, longe de tudo, onde o vento soprava devagar e até o tempo custava a passar. A comida era feita no fogão de lenha, servida em pratos de folha, e à base de canjiquinha, angu, quiabo e torresmo mesmo. Às vezes a gente até dividia um ovo frito com um irmão, ou ganhava um pedaço de peito de frango também, mas aí já era uma festa. Também, há quase vinte quilômetros da cidade, com uma estradinha horrorosamente ruim e demorada, que só prestava para os valentes cavaleiros, os boiadeiros e os carros de bois pesadões e chiadores. Quando chovia, então, o desastre era total, ninguém passava mesmo, nem tatu fugindo dos cachorros.


Ainda assim, apesar do isolamento e esquecida da civilização, a família vivia na mais santa paz de Deus e todos aprenderam a rezar, a viver do trabalho, a ler e fazer contas, e os mais novos até puderam ter o colégio. Papai, também, tinha muita raça e dava a maior força. Ô homem de fibra! Deixou muito orgulho para os filhos.


Como não havia instituições de ensino nas proximidades, foi o velho mesmo que teve de mandar levantar, por conta própria, junto de casa, uma construção menor, mais parecida com uma tulha de guardar a colheita, para instalar um professor com a família, e preparou uma boa sala de aula ao lado, bem equipada, com tudo o que achava que a meninada fosse precisar para estudar, como carteiras com suporte para o tinteiro, cadeiras de encosto, quadro negro com bastante giz, um largo mapa do Brasil colado à parede e a mesa maior, com a campainha do professor. Tudo muito decente, bem arrumadinho, bem acertado, do jeito mesmo que uma escola de verdade tem lá da cidade. Os problemas eram apenas para segurar o mestre na roça, que depressa a família se aborrecia, caía em depressão e queria voltar para a civilização. E da iluminação, também, que quando escurecia tinha-se de apelar para o lampião, com uma luz que piscava o tempo todo e uma fumaça fedorenta de espantar até a mosquitada.


Não sei quantos professores contratados por papai passaram pela escola. Uns bons, outros apenas esforçados, mas ninguém queria ficar muito tempo mesmo. Chegavam, instalavam a família, tocavam as aulas por alguns meses, mas raramente dobravam o ano, que, nas festas de Natal, já queriam voltar para a cidade, para perto dos parentes, do médico, para acabar de criar os meninos com mais recursos. Difícil segurar profissionais competentes num rincão tão longe do centro, com tantas oportunidades na cidade. Como caçula da família, só cheguei a conhecer os últimos professores, que foram seu Dil e duas senhoras, que me alfabetizaram, ensinaram as contas e mais um pouco do que sei. Agradeço muito a eles.


Seu Dil – de Dilermano Moreira, mesmo, só conheci no fim de sua estadia na roça, mas fiquei sabendo e admirando muita coisa boa que fez, que deixou para nós, tornando a escola melhor e mais eficiente e o sítio mais agradável e conhecido.


Deixou muitas histórias, histórias boas e tristes.


O professor era um homem de muita criatividade e iniciativa, que gostava de inventar coisas. Ninguém sabe como tirava da cabeça tantas ideias, como as festas do mês de maio na fazenda, que ficaram famosas em toda a redondeza. Um luxo para as famílias, que podiam usar as melhores roupas e ver as meninas vestidas de anjo, com asas e grinalda, coroando Nossa Senhora. Para falar a verdade, o de que me lembro mais das festas era mesmo do foguetório, que explodia na hora da coroação, iluminando a frente da casa e espantando a cachorrada da vizinhança. Muito linda! E foi dele também, do professor Dil, a criação das festas de comemoração do São João, no mês de junho, com as barraquinhas de pipocas, docinhos de leite e rapadura, paus de sebo e até uma quadrilha muito animada e bem ensaiada. Fazia furor! Quem tocava a sanfona era seu Germano do Turvão, um preto velho de barba branca, que vinha a cavalo com seu Pinto do cavaquinho, dona Lili e seu Augusto, os cantores. Hoje se diz que solavam. As moças namoradeiras vibravam de emoção, podendo flertar com os safados dos rapazes e dançar abraçadinhas com eles, rosto colado, trocando segredinhos a noite toda. Mas teve mais, seu Dil não parou por aí não. Foi dele também a iniciativa do campeonato de bilhar, na tulha de café, que enchia a fazenda aos domingos (meu cunhado gostava porque era quando conseguia liquidar todo o estoque da venda) e dava muitas apostas. E do campeonato de malhas, que fechava o terreiro defronte da casa e vinha gente até da cidade jogar e fazer as apostas. E, mais importante ainda, foram as olimpíadas de Nossa Senhora da Penha, até a capela no alto do morro, mais de quinhentos metros de ladeira muito íngreme, que o Monsenhor veio de Ervália só para abençoar os participantes. Muito querido o professor, sabia animar o pessoal. Era eficiente, dedicado, estimado pelos alunos, ninguém tinha qualquer queixa, e era elegante também, gostava de exibir as roupas caras, sapatos bons, sempre de barba feita e cabelos bem aparados. Um verdadeiro ídolo das meninas. Sua mulher cortava um dobrado no tanque e na tábua de engomar, para deixá-lo sempre na linha. Um autêntico cavalheiro, como dizia mamãe.


O professor Dil era um conquistador, em toda a extensão da palavra. Veio de Ubá, havia quase três anos, mas não chegou muito tranquilo não, parecia um pouco assustado com os inimigos que estava deixando para trás. Saiu meio corrido da cidade de Ary Barroso, segundo contavam as melhores línguas. Um escândalo muito feio.


A história dele, até onde se sabia, era que havia abandonado no meio o curso de engenharia, para trabalhar numa indústria de móveis e poder se casar. Tinha muita habilidade e técnica, um bom profissional. Ganhou uma boa casa, tinha um salário confortável e um querido grupo de amigos.


Vivia satisfeito na cidade, quando – era o que espalhavam as línguas mais severas – foi acusado de assédio a uma colega, que depois ficou sabendo tratar-se da sobrinha do diretor. Na verdade, deve chegado mesmo a ter um caso com ela, ninguém tinha dúvida, que foi a própria esposa traída que descobriu o malfeito pelas manchas de batom na camisa dele, e armou o maior circo, agredindo o desavergonhado, rasgando-lhe a camisa e berrando alto para a rua toda ouvir.


Com um escândalo desse tamanho, numa cidade modesta e tranquila, ainda que com muito pesar, a empresa não pôde segurar o empregado, limitando-se à aplicação de uma pena mais branda, e se viu na contingência de demiti-lo imediatamente. E o coitado do funcionário, que não tinha onde cair morto nem para onde correr, acabou sendo obrigado a deixar a cidade, fugindo para o lugar mais distante que encontrou, que foi exatamente a fazenda de papai, no Casca, onde o ilustre conquistador já chegou com a fama de desrespeitoso e imoral.


Mas nem na fazenda o imparável galanteador tomou tento ou juízo e assentou cabeça, que vivia perturbando as meninas e as senhoras, criando problemas para as famílias e pondo em risco a paz de muitos lares. Uma das vítimas do professor, a mais atacada, foi justamente minha irmã mais velha, casada com o dono da venda (era um mulherão! Eu posso dizer), que o professor paquerava em qualquer lugar, mandando recadinhos e bilhetes através das empregadas e meninas da escola. E o insaciável don juan quase se dava mal outra vez, quando meu cunhado descobriu a ousadia, que foi tirar satisfações e só não lhe quebrou a cara bem quebrada porque papai soube antes e acudiu, passando-lhe o maior sermão, que acalmou tudo por uns tempos.


Ao chegar de Ubá, na verdade, o professor Dil tinha pouco tempo de casado – acho que menos de dois anos – com dona Carolina (era Carolina mesmo, só dona Carolina, que ninguém podia chamar de dona Carol não, que ela se aborrecia. Dona Carol era a negra maluca que fazia xixi na rua e jogava pedras e xingava a molecada que a aborrecia). Mas dona Carolina era gente boa também, bem conceituada nas famílias. Uma excelente costureira, pelo que diziam as mulheres, com alguma habilidade na cozinha, sabia cuidar dos doentes e tinha uma conversa bem divertida, conhecia histórias interessantes, principalmente da sociedade de Ubá, onde vivera a maior parte da juventude. A grande mágoa da ilustre dama, todo o mundo sabia, que ela mesma falava sem papas na língua, era estar chegando aos trinta anos sem ainda ter pegado barriga. Precisava arrumar logo um filho, para prender o marido, que achava que era o único jeito de garantir o casamento.


- Com um filho no colo, homem nenhum deixa a mulher não.


Ah. E era ciumenta também. Ciumenta demais! Arrumava encrenca com tudo o que era menina ou mulher casada, que pegava conversando com o professor Dil, acusando-as de ficarem se oferecendo a seu marido, ao qual vivia atormentando com fofocas e histórias de namoro com as alunas e casos com as mães delas. E o casal não tinha lugar para discutir, brigava em toda parte, que ela o atacava de unhas e dentes, fosse onde fosse, jogava as coisas para cima dele, como lamparinas, talheres, vassouras e até pratos de louça, mas sempre levava a pior, que acabava apanhando por isso.


Pois é. Foi com ela mesmo que se deu a briga mais séria e barulhenta. Uma verdadeira guerra de índios encapuzados, que agitou a fazenda.


Foi uma noite, pouco depois das ave-marias, não me lembro bem, mas devia ser em março, que a família se reunia para o terço diante do altar de São José, ninguém podia faltar, que a mamãe não deixava mesmo. Nem bem a gente chegara ao segundo mistério, principiou a gritaria na casa da escola. Um pecado! Perturbar assim a oração da família. De início, a latomia não amolava muito, atrapalhava apenas um pouco a devoção dos devotos, mas logo foi aumentando, a gritaria crescendo, tomando conotações dramáticas, assustando todo o mundo: parecia estar ocorrendo um crime muito grave na casa do professor e alguém precisava fazer alguma coisa, não dava para continuar ouvindo calmamente, como se não fosse com a gente. Eram pancadas, xingamentos, ameaças, objetos atirados, pedidos de socorro e muita choradeira. Muito choro mesmo. Uma tortura! Não dava para ficar parado ouvindo tanta judiação.


Fazer o quê? Em briga de marido e mulher, como diz o ditado, ninguém deve meter a colher Mas nas condições presentes, diante de um massacre, uma situação tão grave, para evitar um assassinato, não era possível respeitar o ditado, não podia valer naquele caso, deixasse para quando fosse só uma briga, com alguns palavrões. Em nosso caso, diante de tanta violência, com riscos de vida, ninguém pode se omitir, o melhor é esquecer a colher, esquecer o faqueiro todo, e correr em socorro da vítima. Precisava salvar a infeliz.


Foi papai mesmo que mandou interromper o terço, de cara fechada, mas uma bondade de santo, pondo todas as atenções na disputa vizinha.


- Socorro! Vai me matar. Me acudam.


O drama era real, precisava agir.


O jeito era correr para lá e papai não pensou duas vezes. Pegou a bengala, levantou manquejante, com a perna enrolada num pedaço de cobertor velho, e saiu arrastando o reumatismo tradicional, chamou mamãe e partiram os dois para lá. Os dois mais resto da família, que ninguém queria ficar para trás. As meninas, curiosas de saber o que se passava, foram logo atrás, cheias de ideias pacificadoras, e nós, os meninos, só de curiosidade mesmo, que o que a gente queria na verdade era ver a briga, muitos socos, se desse para torcer… A porta da casa estava fechada, mas cedeu ao primeiro o arranco de papai, deixando que a malta toda invadisse a residência, para assistir ao espetáculo.


E o ambiente, de fato, estava mais para negro mesmo, muito sério, um massacre na verdade. Vergado sobre a esposa, já de roupa quase toda rasgada, com a vassoura na mão e uma cara de cão chupando manga, o professor Dil a agredia impiedosamente. E batia muito, sem piedade, batia para valer. Batia com força na cabeça. Batia com força nos braços. Batia com o cabo da vassoura no corpo. Batia nas pernas. Batia sem rumo certo, mas batia de qualquer maneira, seu negócio era bater. A vítima, coitada, já bastante ferida no rosto, com os olhos escuros, o sangue escorrendo dos lábios, dos braços e das pernas arranhados, com uma larga mancha à altura da coxa sujando a roupa toda.


Com a autoridade de patrão e dono da fazenda, papai partiu para cima do agressor, segurando-o pelos ombros e ordenando que soltasse a vítima e cessasse imediatamente a agressão. Foi tudo num instante, que o velho sempre foi muito respeitado, não admitia contestações.


Pego no erro, o valente mestre, ainda que um tanto constrangido, obedeceu às ordens, fazendo uma parada, sem conseguir olhar para papai, que continuava a encará-lo de cara fechada.


- Mas seu Tonico, ela…


- Para já com isso, seu safado, estou mandando. Covarde! Agredindo, assim, a pobre esposa. Não é papel de homem.

- Se ela inventou que fiz mal às meninas da escola.


O cessar da pancadaria foi um consolo para mamãe e as filhas, que não sabiam o que fazer para aliviar o sofrimento da sofredora companheira. Mas, para surpresa geral, foi a própria vítima que protestou, gritando cheia de ódio contra papai.


- Parar por que, se está na casa dele? Quem manda aqui é ele, e marido é meu, pode bater quanto quiser.


Assustadas com o discurso da infeliz, as socorristas se recolheram inertes, sem poder fazer nada. Mas nem assim dona Carolina parava de berrar contra papai, que há muito não dizia mais nada. Apenas seu Gil resolveu recomeçar a pancadaria, fazendo a mulher se calar, com um pescoção na boca, enquanto guardava a vassoura e se retirava para o fundo da sala.


Inconformadas, mamãe e as meninas não tinham o que dizer. Ninguém gosta de ver uma pessoa sendo supliciada daquela forma, mas não havia nada que se pudesse fazer. Somente tratar as feridas da pobre coitada.


- Mas dona Carolina, a senhora está ferida, precisa se tratar. Nós queremos…


Falou o que queria e ouviu o que não queria.


- Pois vão embora já, que estou na minha casa. Foi meu marido que bateu, que eu sou a mulher dele. Se tivesse batido na senhora, que não é a mulher dele, então

estava errado, a senhora podia censurar.


Não sei qual foi a conversa de papai com o professor Gil, no dia seguinte. Sei que não ficou nem mais três dias na fazenda e desapareceu, deve ter ido para muito longe, levando a mulher para bater nela em outro lugar.

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