• Joaquim Rubens Fontes

Menina de muita sorte

Atualizado: Mai 25



Maria Letícia era uma garota protegida pela sorte. Uma felizarda.


No campeonato de peteca, muito concorrido na cidade, sua vantagem era ter Olguinha como parceira, que, juntas, ganhavam todas, não perdiam nada, de ninguém. Fácil, fácil. A paulista, de fato, era uma jogadora muito eficiente, que não errava nunca, um lance sequer. Sabia se colocar, para cobrir as falhas da companheira.

− Uma campeã! Tem talento, nasceu para vencer.

Inacreditável a habilidade de Letícia. Uma garota de menos de vinte anos, saltando de um lado para outro, rebatendo com precisão. A peteca sempre a procurava e ela não errava um tapa. Era pipá e bosta! Não perdia uma. Mas nenhuma mesmo. Também, com um corpo esguio, alto e muito ágil, que não relaxava na ginástica nem nas caminhadas diárias, era uma verdadeira atleta.

− A gente precisa manter a forma.

− Nasceu com estrela e seu destino é brilhar.

Ninguém conhecia nada de sua família, tinha qualquer notícia, sequer sabia de onde viera. Um pedaço de morena bonita, muito simpática e educada, tentando se ambientar à vida do interior. Trazida por Olguinha, após a conclusão do curso na faculdade de educação, inscreveu-se no estágio da faculdade de pedagogia, que precisava, para exercer na capital, onde sonhava instalar ou dirigir um grande colégio. Desde a chegada, há mais de seis meses, morava com a família da companheira, que lhe oferecia um quarto bem confortável, com banheiro privativo e vista para o quintal coberto de árvores frutíferas. Além dos estudos, Letícia passeava pela cidade, distribuindo simpatia e fazendo amizades. Conhecia muita gente e era conhecida também, que brincava com todos, não ligava às cantadas, nem brigava com as outras meninas.

Era ela, e pronto. Uma paixão!

Quanto às origens, ninguém jamais especulara, se é que alguma vez se preocupara com isso. Acreditava-se ser de São Paulo e ter algum dinheiro, que todo mês ia ao banco receber a mesada. Se tinha algum compromisso, ninguém sabia nem perguntava. Quisesse contar, ela que decidiria.

E Maria Letícia não se queixava de nada, nem mesmo quando era esquecida, ou não era convidada para algum evento, alguma festa ou aniversário. Viera para estudar, se preparar para a nova carreira, e isso era tudo o que importava.

− Ninguém é obrigado a convidar a gente para nada, não. Convidar por quê? Convida quando quer, se tem alguma amizade.

Para a festa no clube, no noivado da Laurinha, entretanto, não sei de quem foi a ideia de chamá-la. Mas foi lembrada, e o mais provável é que tenha sido convidada por tabela: a noiva teria ido chamar Olguinha e, para não ficar constrangida, estendeu o convite a Letícia, que nem era muito de suas relações. Mas, se não custava nada... Coisas da sociedade, só pode ter sido.

Pois é! Mas Maria Letícia foi convidada, participou da festa e fez um grande sucesso.

Estava dançando com um amigo, um senhor um pouco mais velho, e, ao passar junto ao piano, Letícia gostou do instrumento, ficou bastante entusiasmada. Esperou apenas o conjunto terminar a música que estava tocando, os dançarinos voltarem a suas mesas, para, com autorização do diretor do clube, assumir o teclado, enquanto todos se aquietavam nos cantos, para ouvir a melodia da pianista, que enchia a sala. Foram mais de cinquenta minutos de piano, concluídos com muitas palmas. Ganhou o público.

A festa de Laurinha continuou animada, muita gente voltou a dançar, se divertindo numa alegria geral, inclusive Letícia, que também não parava, tinha paixão pela dança, era bailarina, participava de um tradicional grupo de balé, tendo se apresentado em grandes salas. Dançou com diversos rapazes, que queriam exibir-se a seu lado, participar de seu sucesso.


A maior novidade, porém, ocorreu quando, perto do fim da noite, foi à toalete e um amigo levou a conhecer o resto das instalações do clube, inclusive o salão de jogos.

Sempre gostei de jogar. Lá em casa tinha uma sinuca muito boa e todo o mundo, principalmente mamãe, jogava muito bem.


Desafiada por um dos rapazes que lhe ouviram o relato, aceitou disputar somente uma partidinha, quando revelou habilidade no taco e mostrou experiência e ainda estar em forma. Foram apenas três partidas, que perdeu ou ganhou, sem se importar com o resultado, mas se divertiu, lembrando da juventude na fazenda e deixando a rapaziada admirada.

− Deixa acostumar com a mesa, que não tem para mais ninguém.

Meio aborrecido com a gozação, Maurício Canela, que se julgava um dos campeões da cidade, logo procurou uma desculpa para a derrota, e se apegou a ela.

− A mesa parece um pouco descaída. Quero ver em Palmeiras, no bar do Salim. São três mesas lá, a gente pode escolher.

− Desculpe. Não sei se a gente pode frequentar um bar assim.

A brincadeira pegou, a cidade inteira ficou sabendo do desafio, aguardando o dia que Maurício Canela iria tirar a revanche com Letícia.

− Vai ser bom, para acabar com a onda dessa paulista de merda, que se julga a maioral.

Só que o dia tão esperado não chegava nunca. Fosse por falta de tempo de Maria Letícia, fosse por alguma viagem do Maurício, mas...

Outra consequência do recital de Letícia, entretanto, tinha sido o convite para tocar na igreja, quando do casamento da Marcinha, amiga e colega do estágio, marcado para dois meses, garantindo com antecipação o sucesso do evento. Só faltava escolher as músicas, que apenas a Marcha Nupcial e Ave Maria de Gounod haviam sido selecionadas.

Pelos fins de julho, a vida de Letícia mudou. Caiu o véu, revelando um pouco de sua identidade.

E ocorreu com a chegada à cidade de um carro bem novo, dirigido por motorista uniformizado, trazendo apenas uma senhora de preto, de seus cinquenta anos, com reserva no hotel. A passageira ficou hospedada, enquanto o condutor voltava sozinho no carro com placa de São Paulo.

Não era comum aparecer na cidade uma senhora tão elegante. Ninguém se lembrava de ter visto antes, nem sabia quem era ou qual sua origem. Tomou a melhor suíte, tratando de se aprontar logo, para receber uma convidada especial, para almoçar no próprio hotel. Só depois de arrumada, ligou à casa de Olguinha, a falar com a filha, Maria Letícia.

− A senhora quer falar com a dona Letícia?

− Sim. Por favor. Se puder chamá-la para mim.

Surpresa, a criada foi logo avisar a visitante.

Letícia tomou um susto, que não costumava receber muitos telefonemas, nem sabia da volta da mãe, que andava numa excursão pelo exterior e não era esperada assim tão cedo. Sua vinda era esperada apenas para o fim do ano, no encerramento do estágio, faltando ainda mais de três meses.

Em duas palavras, Estelinha e a filha combinaram o almoço no hotel, junto com Olguinha e dona Vitalina, que ficaram eufóricas de conhecer a mãe da amiga. Foi um tal de tomar banho correndo, de trocar de roupa às pressas, se maquiar e escovar os cabelos para estarem prontas e apresentáveis para a visita.

O hotel era perto, não mais que uns quinhentos metros, mas preferiram tomar um táxi, para não se cansar nem suar, que poderia manchar a maquiagem, e já encontraram dona Estelinha pronta e muito elegante, a esperar no salão, tomando um drinque sem álcool. Foram muitos abraços, beijos e protestos de eterna amizade, antes de irem para o restaurante. Dona Estelinha era uma senhora bem alta, com nome na carreira artística, como cantora lírica, há bons anos. Possuía, de sociedade com a filha, uma fração de uma fazenda de café, no interior de São Paulo, além de pequena participação no capital de uma indústria de carnes, no Sul, legadas pelo ex-marido, antes de deixar a família e voltar para a América. Sua preocupação agora era apenas com a manutenção do manequim, a busca de apresentações em grandes concertos e, eventualmente, alguma participação em comerciais de televisão.

Passaram uma bela tarde juntas, pondo em dia as notícias, com dona Estelinha contando à filha sobre o convite recebido para nova apresentação em Roma, a cantar canções tradicionais e músicas de Villa-Lobos, e que deveria voltar logo a São Paulo, para se aprestar para a viagem, que seria já em setembro.

− Não quis dar a notícia por telefone. Achei que valia a pena vir contá-la pessoalmente, aproveitando para matar as saudades.

− Sim. E gostaria muito de voltar com você, mas preciso de pelo menos mais uns três ou quatro meses para concluir o estágio, me desligar da escola e de outros compromissos na cidade.

− Tudo bem. Podemos ver isso depois. Posso voltar sozinha.

− Desculpe, mas você não ficou de tocar no casamento da Marcinha? – Foi a lembrança de Olguinha.

− Sim. Claro! Não vou perder de jeito nenhum. Por isso que preciso de pelo menos mais três ou quatro meses para me liberar dos compromissos e poder voltar.

− Sei. Então...

Puseram as notícias em dia e mataram as saudades, numa tarde muito agradável.

No princípio da noite, alegando problemas de casa, dona Valentina e a filha, que não podiam mais permanecer no hotel, pediram licença para se retirarem, deixando as amigas à vontade para conversar mais. O principal cuidado de dona Valentina, na verdade, era na forma de acolher em sua casa a nova amiga, que não via como hospedá-la com o devido conforto, por falta de espaço. Para sua sorte, porém, Letícia não queria deixar a mãe sozinha no hotel, decidindo ir fazer-lhe companhia.

− Vamos ficar no hotel sim, mas sem deixar de frequentar sua casa, que queremos continuar gozando da amizade da família.

Ninguém conhecia nada da vida de dona Estelinha, sabia de suas aptidões, mas o sucesso de Letícia havia conquistado uma legião de amigos e admiradores, que esperavam poder ouvi-la novamente no jantar do clube, no sábado. O salão se encheu mais cedo, o conjunto começou a tocar, preparando-se para a parada programada para as onze horas, que foi quando o diretor veio convidar Letícia a assumir novamente o piano, para repetir a apresentação da semana passada, quando fizera tanto sucesso. Sem fazer charme, Letícia foi para o piano, tocou bossa-nova, um samba de Noel Rosa, outro de Dorival Caymme, com muito agrado.

Logo, porém, sentiu que não estava repetindo o sucesso anterior, que o público parecia um tanto frio. Precisava esquentar o ambiente, quebrar a monotonia, e sabia o remédio. Fez sinal a sua mãe, dona Estelinha, na mesa ao lado, e tirou os primeiros acordes de O Sole Mio, que sabia tratar-se de uma de suas canções prediletas.

A estratégia funcionou. A artista se levantou, pegou o microfone e soltou a voz, arrancando aplausos de todo público, que vibrou de entusiasmo.

Dona Estelinha, na verdade, era uma mezzo-soprano muito afinada, com alguns sucessos no mercado, principalmente de músicas clássicas e composições italianas. E seguiu com Torna a Surriento, Kara Italia, Inamoratta, Champagne. As brasileiras Carinhoso, Aquarela do Brasil e Carolina. Alguns sucessos americanos, franceses e espanhóis completaram a apresentação. Tinha um repertório bem vasto, que encantou o público.

Após a apresentação, ao recomeçar o baile, Letícia levou a mãe à toalete, passando ao lado do salão de jogos, onde viram as sinucas, que dona Estelinha quis examinar de perto. Estava examinando as mesas, quando surgiu o Maurício, cobrando de Letícia a revanche prometida.

− Quero ver se vai correr de novo, agora que as mesas foram reguladas pra nós?

Letícia aceitou o desafio, jogou umas três partidas, mas acabou cedendo lugar a dona Estelinha, que perdeu as duas primeiras, para ganhar apenas na terceira.

− Tem jeito aqui não! Queria pegar era a Maria Letícia, mas lá embaixo, no bar, que estou mais acostumado.

− Sei lá! Não conheço o bar, não sei se posso deixar minha filha frequentar esses ambientes não. Mas está aí, fale com ela, conversa direitinho. Combina lá.

Maurício não conhecia dona Estelinha senão daquelas partidas, mas não tinha medo de ninguém e reforçou o convite.

− Convidei, mas se acovardou novamente. Não aceita ir no lugar dela?

Com cara de uma grande viciada, dona Estelinha estava louca por aceitar. Não ia perder uma sinuca tão divertida.

− Sei lá! Se não conheço o tal bar. Sempre joguei em casa, na fazenda. Acho que não vai pegar bem uma senhora ficar jogando sinuca por aí, num lugar desses. Você acredita mesmo que pode ganhar da gente lá?

− Deixa de medo. Vamos lá.

Sorrindo, dona Estelinha concordou de cabeça.

− Que tal na segunda? Às quatro horas, no bar do Salim, a dez reais a partida.

Com um sorriso irônico, a mulher aceitou o desafio.

− Se dá para ganhar algum trocado... Estou precisando.

E dona Estelinha não fugiu, ficando acertado, assim, então. Olguinha, Márcia e Letícia iriam com ela, fazendo companhia e torcendo.

O bar do Salim ficava numa esquina da praça principal do bairro, mas não era dos lugares mais recomendados. Antro de solteirões desocupados, boêmios na verdade, que apareciam para tomar a pinguinha da tarde e bater uma sinuquinha, as meninas nunca podiam assistir.

Havia apenas três mesas de sinuca, numa sala bem apertada, com um chão de assoalho mal nivelado e rangedor, e pouco espaço para os assistentes. Só dava mesmo para os vagabundos, viciados, gente de menor extração. Mas quem disse que dona Estelinha ia fugir do desafio? Apareceu exatamente na hora combinada, às quatro horas da tarde, e foi de tênis, bermudinha folgada e blusa sem mangas, pronta para a disputa. E se mostrou uma atleta preparada! Chegou acompanhada da filha, de Olguinha e da outra amiga, que pareciam desconfortáveis no salão, que já encontraram lotado, com torcida organizada, toda postada, só de homens ou coisa parecida, alguns certamente já um tanto altos, afrontando as senhoras com muitos palavrões e contando vantagens com as mulheres, talvez pensando em assustar a adversária, ou vencê-la no grito. Pura perda de tempo. E se dona Estelinha não foi vaiada então, ao menos ouviu um uh prolongado. Bobagem! Estava acostumada às demonstrações do público, não ligava a essas cenas de simpatia, o jogo tinha de ser decidido na ponta do taco. Chegara a hora de ver quem era melhor.

O primeiro adversário a se habilitar para a disputa foi mesmo o desafiante, Maurício Canela. Tinha fama de muito bom no jogo, não ia perder para uma bosta de mulher qualquer. Foi logo escolhendo o taco e a mesa número dois, que conhecia melhor e parecia mais larga e mais nova.

Pôs na caçapa da três os dez reais da aposta, esperando que a adversária o imitasse. Passou bastante giz no taco, antes de dar a saída, com pose de um grande campeão. Não era de bater em mulher, mas uns poucos tapinhas iam servir para impor o respeito. Conseguiu matar as duas primeiras bolas, abrindo uma vantagem de quinze pontos, e estava se achando o máximo, sentindo-se muito bem, até dona Estelinha pegar o taco e passar a vencer a partida. Na terceira rodada, a jogadora acabou com as bolas todas, deixando o adversário assustado e boquiaberto, enquanto ia ao canto da mesa pegar o dinheiro da aposta.

Saíram para a segunda partida, mantendo o mesmo valor.

Foram seis disputas, mas Maurício só ganhou uma, beneficiado por um defeito no taco da adversária, que soltou a sola da pontinha, e não se conformava, queria a revanche imediatamente, numa última partida, mas foi vencido de novo. Infelizmente para ele, não estava numa boa tarde, perdeu mais de cinquenta reais, antes de achar outro defeito da mesa, que Salim ficou de mandar ver logo cedo, no outro dia.

E, como o dinheiro havia acabado, Maurício teve de dar lugar ao próximo desafiante.

O segundo adversário a enfrentar dona Estelinha foi Leandro Carvalho. Um mulato muito forte, apelidado de Gambá, que vivia bêbado, trabalhava na oficina mecânica de uma rua próxima e raramente perdia na sinuca. Só quando estava muito alto. Apostou cem reais em quatro partidas, e ganhou somente uma, saindo com o prejuízo, mas sem reclamar, achando uma desculpa, e deu no pé. Modesto – o legítimo campeão da cidade, foi o terceiro adversário. Começou ganhando, foi aumentando a aposta, chegou a estar com duzentos reais de lucro, mas não conseguiu segurar a vantagem, perdendo tudo e saindo limpinho, limpinho, quando não tinha mais dinheiro para jogar. Não pôde mais.

− Melhor assim. Podemos marcar a revanche para sábado.

− Sábado, não, que tem a missa. Segunda-feira, então, na mesma hora. A gente pode começar de cinquenta reais, se você quiser.

O último adversário da tarde foi Nicolau Manteiga, que só tinha vinte reais e começou ganhando, mas, aos poucos, foi devolvendo a vantagem, até perder tudo, inclusive o dinheiro que levara para pagar a conta da luz, e não pôde mais continuar jogando, que sem dinheiro não tinha vez na mesa, e também saiu alegando um compromisso. Mas logo descobriu as causas do insucesso e agendou a revanche para a segunda-feira, também.

Voltando o taco para o depósito, com mais de trezentos reais de lucro, dona Estelinha se despediu dos companheiros, prometendo nova disputa na segunda-feira. Em poucas horas, a cidade inteira tomava conhecimento do sucesso da paulista, com muitas explicações para sua vitória.

− Modesto não devia estar num bom dia. Ou, quem sabe, estava apenas experimentando, que nunca o vi perder para ninguém. Pode esperar a segunda rodada. Ela vai devolver todo dinheiro que ganhou.

A previsão não funcionou. Na segunda-feira, Estelinha, outra vez, ganhou bastante, saindo com uma vantagem ainda maior, dando um verdadeiro banho nos adversários, deixando agendado novo desafio para a próxima quinta-feira, antes de ir cuidar do cabelo.

− Vão pagar o salão para mim.

Na quinta-feira havia nova rodada. Presa ao telefone, cuidando de negócios, dona Estelinha lamentavelmente não pôde ir ao bar, encarregando a filha de fazer as honras da casa. A ausência da adversária, entretanto, deixou frustrados os jogadores, ansiosos por uma vingança, que lavasse a alma. Letícia não passava de uma garota inexperiente, sem condições de enfrentar um grupo tão forte. Mas, se tinha dinheiro e apostava também, era a oportunidade de recuperar algum prejuízo.

Pagaram caro pelo erro de julgamento. Controlando-se nas primeiras partidas, até habituar-se à mesa e dar ânimo aos inimigos, a paulistinha foi levando o jogo. Cerca das cinco disputas iniciais foram equilibradas, com ela até perdendo mais do que ganhando. Quando criou confiança e resolveu atuar com seriedade, então, parecia outra jogadora. Era grande a diferença de pontos em cada partida, deixando na lona os inimigos. Para ter alguém que a enfrentasse, passou a dar vantagem aos competidores, apostando cem reais contra cinquenta, depois cem contra vinte, e até cem contra dez. O que o desafiante quisesse, ou tivesse no bolso.

E, a partir de então, virou rotina. Duas vezes por semana, dona Estelinha ou a filha apareciam no bar, pegavam os mesmos tacos e limpavam todos os adversários. Venciam sem dificuldade, e saíam com um bom lucro, para cortar o cabelo, fazer as unhas ou pagar um lanchinho para as companheiras, na lanchonete da praça.

Com pouco tempo, as paulistas, que carregavam fama de mulheres bonitas, cantoras, jogadoras de peteca, dançarinas e pianistas, agora eram também campeãs de sinuca muito respeitadas. Um tesouro disputado pela rapaziada.

O sucesso de Maria Letícia e a mãe, porém, teve outra consequência. Com vergonha de continuar perdendo para as mulheres, os rapazes foram desistindo do bar, procurando outros salões, fugindo às perigosas algozes, sendo substituídos por outras moças, que queriam aprender.

− Besteira! Sinuca é coisa de mulher. Nunca vi nenhum homem sério perdendo tempo com isso não.



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