• Joaquim Rubens Fontes

Nossas férias no Rio

Atualizado: Jul 13




É triste mas é verdade. Tia Mariquinha morreu exatamente quando não podia. Mas morte de tia não é a gente que escolhe.


Não vou ficar aqui descrevendo a tia, que não vem ao caso. Era minha tia, irmã de meu pai, mãe de três filhos e, o mais importante, casada com um homem rico. Eu disse que o tio Arnaldo era rico, não milionário, que ele não era. Mas rico ele era sim, tinha algumas posses, uma grande oficina mecânica e podia dar conforto à família e desprezo aos parentes mais pobres. Exatamente assim.


Isso era a tia Mariquinha e a família dela. Eu e minha família não tínhamos nada disso. Morando lá onde o vento faz a curva, sem rendas nem propriedades e lutando para viver, éramos dois irmãos, além, é claro, da mamãe, que trabalhava para manter a gente.


Agora posso confessar uma frustração, que não era pequena. Os colegas de escola e amigos da rua, quase todos, falavam com pompa das férias passadas em lugares bonitos, distantes, em pousadas modernas ou na casa de algum parente ou amigo da família, com muito conforto, muita comida, doces e refrigerantes. Enquanto a gente, na verdade, se dissesse que gostava de refrigerantes estaria mentindo, que quase não conhecia. Aliás, só conhecia de admirar o rótulo na padaria, as garrafas arrumadinhas na prateleira, e de ouvir a musiquinha cantada no rádio. Beber, mesmo, algum refrigerante, nem sei se faz bem ou mal, que posso até ter bebido um pouquinho sim, mas teria de puxar muito pela memória para tentar lembrar quando.


A gente não tinha telefone, foi uma vizinha que veio chamar a mamãe, uma tarde, para atender a ligação. Disse que era do Rio, de um tio de Copacabana. Era do tio Arnaldo sim, “convidando” a passar uns dias em sua casa, com a Mariquinha, minha tia. E, para alegria geral do povo, mamãe, que sempre era muito indecisa, aceitou logo, pensando na felicidade dos meninos, que iriam poder passar umas férias na praia, e ela, cuidando da cunhada, certamente iria ganhar algum dinheiro para ajudar nas despesas de casa. Fez a mala dela, a minha e de meu irmão, pediu a uma amiga para ficar olhando nossa casa, tratando do gato e molhando os vasos, e fomos os três. Não sei se o tio falou de tempo, de urgência, mas quem tinha pressa éramos nós. Até chegar lá.


O “convite”, na verdade, era uma convocação para ficar com tia Mariquinha, cuidar dela por alguns dias, que estava muito mal, já tomando recado para o Moço lá de cima. E a razão da gentileza era a viagem que o tio precisava fazer ao Sul, com perspectivas de demora de mais de uma semana. A filha dele também estava viajando, ou melhor, cumprindo um longo estágio no exterior, e os rapazes – um já era casado e a esposa nunca aparecia, que não se dava com a sogra, e o outro não era de nada, um imprestável, um grande irresponsável, que ninguém confiava nele, ainda mais para ficar tomando conta da mãe naquele estado. Na verdade, a gente caiu foi no conto do tio Arnaldo.


De qualquer forma, não importa. O principal era que também iríamos poder contar aos colegas depois, assegurando que tudo estava programado há muito tempo e que, se a mamãe não havia confirmado antes, era porque estava esperando o pagamento das férias, que custara a sair, mas tudo havia sido regularizado a tempo. Não sei o que é que a mamãe tinha a receber de férias, se vivia de fazer balas e doces para uma confeitaria, tendo de vender o almoço para garantir o jantar?


Para azar nosso, o tio designou-nos um quartinho lá nos fundos, sem janelas, mal mobiliado, com apenas uma cama com o colchão de palha bastante gasto, que eu e Toinzinho tívemos de dividir. Mamãe precisava dormir no sofá, ao lado da doente, e quase não falava com a gente. Tinha televisão na sala sim, mas não funcionava bem, ou era a gente que não sabia ligar direito e, assim, estávamos era realmente presos, sem poder fazer nada. Mamãe não deixava ninguém sair, tinha pavor de que a gente pusesse o pé na rua sozinhos.

Ainda não falei da comida. E seria melhor nem falar. Era mamãe, também, que tinha de preparar a nossa e a da doente, servir, lavar os pratos, arrumar a cozinha e deixar tudo nos lugares. Coitada! Se tinha pensado num descanso...


Duraram pouco mais de uma semana as maravilhosas férias no Rio, que o tio nem havia voltado ainda. A tia teve um chilique, muita febre, mamãe chamou o médico que o cunhado havia recomendado, a tia foi removida para o hospital, para a UTI e depois para o necrotério. Foi o primeiro enterro que acompanhei, e achei uma coisa muito chata e sem graça.


Quando tio Arnaldo voltou, mamãe já havia cuidado de tudo e a única coisa que ele fez foi reclamar dos gastos, das despesas em casa e da falta de cervejas na geladeira. Nem uma ajuda para a volta queria dar, e só soltou a grana quando viu que a gente não ia poder ir embora, sem o dinheiro das passagens. Era assim mesmo, muito grato e gentil.


Mas a tia morreu sim, foi enterrada num caixão roxo, o tio teve de arranjar o dinheiro das passagens e a gente pôde voltar para casa. E agora também tínhamos umas férias maravilhosas para contar aos amigos, enquanto mamãe se multiplicava, trabalhando até à noite, para fazer dinheiro para o pagamento das contas do mês e das dívidas da viagem.


E para esquecer para sempre a aventura em casa da cunhada.

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