• Joaquim Rubens Fontes

O preço da traição



Foi bom encontrar o Fernando. Sempre foi um companheiro legal, muito chegado, embora, não posso negar, também tivesse curiosidade de saber o que havia acontecido entre ele e a Glauce. Eu e todo o mundo queria saber.


Ocorreu por acaso o encontro, no avião. Ia a Belo Horizonte, ele a Brasília, não houve muito tempo para conversar, mas valeu. Estava magro, abatido, muito branco, com um aspecto doentio afinal – devia estar há muito tempo sem ir à praia, mas conservava a mesma simpatia.


Colegas de faculdade, salvamos muitos companheiros que não faziam os trabalhos, mas, depois do curso, fomos cada qual para um lado e nunca mais nos vimos, só tinha notícias dele por outros companheiros.


Interessante é que a Glauce, sua garota, havia sido minha colega de trabalho numa empresa no Rio Comprido, uns dois anos antes de conhecê-lo. Não tinha nada com a vida dela, mas sabia de seu caso com o chefe, naquela época, muito comentado na empresa.


A verdade é que Fernando foi vendo a Glauce e se apaixonando. Amor à primeira vista, sem dúvida nenhuma. Estava até comprometido, parece até que com uma parente, com apartamento montado em Copacabana, mas recém rompera os laços com a noiva, alegando razões intransponíveis,. Que motivos eram, nunca me interessei saber.


Sei que se atirou inteiro nos braços da nova amada, numa paixão que tinha tudo para ser eterna, e não chegou a três meses. Seduzido, levou-a para o apartamento de Copacabana, e já pensavam em sacramentar o compromisso.


Glauce havia trocado de emprego, passando a outra empresa de informática, mas Fernando continuava na companhia de propaganda e marketing, no que parecia estar muito bom. Da rotina do casal, nos meses que estiveram juntos, ninguém sabia muito nem pouco, apenas que, apesar de um tanto constrangido, ele havia deixado se levar num turbilhão sensual, de muita paixão.


Em função do trabalho, era comum Fernando viajar principalmente a São Paulo e Brasília, e foi na volta de uma viagem que aconteceu o desastre. Costumava passar toda a semana fora, voltando apenas no sábado, mas desta vez conseguira se liberar um pouco antes e pôde retornar na quinta-feira, sem avisar, feliz de fazer uma surpresa à querida. Quem acabou surpreso, porém, foi exatamente ele, ao encontrá-la com outro, na própria cama de casal. Houve uma explosão, com briga, xingamentos e, coisa inimaginável no caso de Fernando, até tentativa de agressão.


A briga foi feia mesmo, conforme ele próprio contou, mas também passou. Glauce foi-se embora, ele reassumiu a solidão da casa e foi curtir a cornice, que ninguém nunca disse se dói.


Somente por uma semana, que não durou mais que isso a tranquilidade.


No outro sábado mesmo, Glauce foi, um pouco alcoolizada, à antiga residência, apanhar as coisas que deixara para trás. Como ainda estava com a chave, não teve problema para entrar, e encontrou o dono da casa descansando sossegado, abandonado na cama. Sem se assustar com o ex-amante, despejou toda ironia, tripudiando-lhe a capacidade sexual.

Fernando não protestou, engolindo a seco a injúria. Esperou calmamente que acabasse de juntar suas coisas e se preparasse para sair, sorrindo muito.


─ Então tchau. Está livre de mim, que não volto nunca mais.


Sem olhar diretamente a namorada e num tom de voz mais baixo e amargurado, Fernando fez a confissão.


─ Bem. Já devia ter contado, mas não deu chance, nem quis saber porque voltei antes da viagem. Mas preciso e vou dizer assim mesmo. Não é por consideração a você não, que não merece, mas para evitar que cause problemas a quem não tem nada com isso.


Cheia de ironia, Glauce abriu os braços concessiva, com novo sorriso.


─ Não viajei a trabalho desta vez, não. Fui a São Paulo fazer novos exames, que confirmaram minha condição de soropositivo, em estado de alto risco de transmissão.


Recolhendo o sorriso e escancarando a boca e os olhos, Glauce era a estátua do pavor.


─ Voltei correndo para recomendar que faça também os exames, mas não tive oportunidade. É melhor cuidar disso agora.

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