• Joaquim Rubens Fontes

Pecado muito feio

Santo Daime é uma manifestação religiosa surgida na região amazônica nas primeiras décadas do século XX. Consiste em uma doutrina espiritualista que tem como base o uso sacramental de uma bebida enteógena, a ayahuasca. (Wikipédia).



Quem diz que a fé remove montanhas não conheceu dona Mariquinhas. Se removesse mesmo, não haveria mais nenhum monte em Minas Gerais, pelo menos enquanto ela era viva.


Pois rezava a santa beata. Como rezava! Diziam as antigas que a devota senhora tinha um oratório em casa, mas, pelo que eu conheci, tinha mesmo era um quarto inteiramente dedicado às suas santas, suas imagens, seus terços e livros de orações. Padre Rodolfo, que acompanhava suas graças, sempre cobrava o dízimo da paróquia e a espórtula do apostolado.


─ Deus dá, mas quer a retribuição.


Tenho o maior respeito por gente assim, que acredita, tem fé de verdade e nunca desiste. Dona Mariquinhas era o tipo cuspido e escarrado. Pelo que contava, havia salvo não sei quantas pessoas da família. A filha mais velha, quando caiu do caminhão, ficou quase uma semana em coma, cercada de imagens e velas, respirando por aparelho, alimentando-se por um tubo no garganta, urinando por tubo e os braços cheios de balangandãs, parecia Cármen Miranda, nunca vi igual. Mas venceu tudo e ficou sem sequelas.


─ Milagre de Nossa Senhora, que atendeu minhas preces. Mandei celebrar doze missas depois.


A operação dela – milagre de São Jorge – foi na vesícula, de onde se tiraram quatro pedras bem crescidas.


─ São Jorge é um guerreiro, que não esquece seus devotos.


Não sei quantas missas pagou.


Assim, na base dos milagres, conseguiu vender o sítio, comprar a casa na cidade, um favor de Santa Edwiges. Casar a filha, graças a Santo Antônio. E tirar o menino da casa de uma mulher da vida, mas aqui foi Santo Expedito que deu jeito.


─ Paguei todas as promessas, graças a Deus. Tenho a consciência tranquila.


O milagre maior, porém, foi a cura do marido, que custou trinta missas a São Judas Tadeu. Mas valeu! Valeu mesmo. Senão, veja só. O cunhado, seu Tatão, morreu de enfarte no dia três. Duas semanas depois, foi o sogro, seu Manuel, que também teve enfarto e morreu.


Mais uma semana, foi a vez do próprio Janjico, que sofreu um ataque muito violento. O médico correu a atender, fez todos os exames, receitou os mesmos remédios, mas não deu esperança.


─ Muito grave o estado dele.


O homem não pode, mas Deus pode. E São Judas é o santo das causas impossíveis. Dona Mariquinhas apelou para ele, seu Janjico morrinhou na cama por uns dias, mas conseguiu se levantar, tomando apenas seus caldos e a sopinha de macarrão, mas estava ali, cuidando dos negócios.


─ Os santos nunca negam um favor a quem tem fé – dizia o vigário.


Dona Mariquinhas acreditava, e rezava. Rezava muito. Mas nem as orações ajudavam, quando seu Janjico adoeceu de novo, começou a esquecer das coisas, dos compromissos, da hora das refeições, do nome das pessoas e até do uso do banheiro. De vez em quando aparecia com as calças molhadas, um vexame.


Consultado o médico, o diagnóstico foi pouco favorável.


─ Pois é! Da idade. A cabeça está cansada, não guarda mais as coisas. Deve ser senilidade, é da velhice mesmo.


─ Como, da velhice? Se a gente tem quase a mesma idade.


Compreendendo o dilema da cliente, o clínico tergiversou.


─ A senhora, graças a Deus, está muito bem, vendendo saúde, mas ele não tem a mesma sorte da senhora.


Se o homem não dá jeito, é apelar para Deus. E dona Mariquinhas ia pela quarta ou quinta promessa, quando encontrou dona Veva, uma contraparente, casada com um primo do Janjico.


Depois de explicar direitinho os problemas do marido, dona Mariquinhas revelou a nova estratégia.


─ Fiz promessa de levar o Janjico a Aparecida, se Nossa Senhora me fizer mais esse milagre.


Dona Veva, que não era muito devota, ouviu a história toda, balançando concordata a cabeça às ações da amiga, mas nada podia dizer quanto às promessas. Seus casos ela procurava tratar com a benzedeira, o médico e, ultimamente, com o chá de ayahuasca, ou o chá de santo daime, usado pelos índios e ribeirinhos na selva amazônica e, até agora, parecia se dar bem.


Para dar atenção à amiga, falou por falar.


─ Santo Daime, menina! Pega com ele. Não vai se arrepender.


Mal ouviu o conselho, dona Mariquinhas correu à loja de estátuas, procurando uma imagem do Santo Daime, ou um livro de orações que falasse do santo, que precisava com urgência. Frustrada, depois, por não encontrar a imagem do magnânimo protetor, foi correndo ao padre Rodolfo, que também não era chegado ao novo advogado no paraíso, mas aconselhou à devota a acender uma vela por ele assim mesmo na ausência, e rezar bastante.

Seu Janjico, que andava debilitado, parou de andar. Morreu à noite, foi sepultado, dona Mariquinhas chorou bastante, só não continuou com a mesma fé no Santo Daime.


─ Não sei. Acho que não acreditou nas promessas que fiz.


Ainda que sem conhecer o novo santo, padre Rodolfo censurou.


─ Que isso? Perder a fé num santo de Deus? Pecado muito feio.

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