• Joaquim Rubens Fontes

Peso na consciência


Não aceito ser tratado como vira-casaca, que não sou, nem nunca fui. Sou Flamengo desde menino e não mudo de time, mas...


Quero falar de coisas mais sérias. Um assunto que me tira o sono, aborrece e perturba a consciência. A minha consciência e acho que a de muita gente mais.


Vamos lá. Há uns dez anos – não sei se é esse tempo todo mesmo, mais ou menos – participo de um grupo de combate ao mosquito da dengue, zika e chikungunya, faço campanha contra o bichinho, meto inseticida por toda parte, esperando assim eliminar o terrível inimigo.


Deus me livre de pegar essas doenças. Deus me livre do tal Aedes aegypti. Quanta gente já sofreu e ainda sofre pelas maldades do indesejável inseto. Virou psicose, principalmente no verão. Na rua, se vejo uma tampinha de garrafa virada, vou logo correndo desvirar, para não juntar água, não quero dar sopa para o inimigo. Acho que não ganhamos a guerra ainda não, mas fizemos um bom estrago na tropa deles. Fizemos sim. E se todo o mundo tivesse participado da luta, teríamos livrado nossa terra dessa praga. Tenho certeza de que teríamos.


Pois é! Meu sonho era eliminar o indesejável elemento. Mas lutei muito, fiz tudo o que estava a meu alcance. Tenho certeza de que cumpri meu dever. E hoje, vejo que não lutei o bom combate. Não sei de ninguém que tenha morrido pelas artes do bichinho, que nem cantar não canta. Dá lá as picadinhas dele, deve tirar um pouquinho de sangue, faz, sim, algumas artes, mas nunca quis matar ninguém, que não é nenhum assassino, nem gosta de perturbar ninguém com sua cantiga. O negócio dele era só picar e tinha muita gente querendo.


Não sei. Não vi nenhum estudo dizendo que o cara fosse algum predador, que comesse outros insetos ou vírus. Mas bem que poderia ser um comedor dos coronas, que vieram da China, matasse todos, não deixasse nenhuma bananinha para remédio, nem para esterco. Pode ser que seja, ou não seja, não sei mesmo. Mas só de pensar que podia ser, a consciência pesa de ter matado.


Veja. Nenhum aedes me deixou preso em casa por tanto tempo, lendo duas ou três vezes o jornal do dia todo amassado, vendo os mesmos programas na televisão, os mesmos políticos fazendo as mesmas promessas e cometendo as mesmas safadezas, enquanto eu ficava levando bronca da mulher, por comer uma banana antes do almoço, uma bananinha só! tomando dois banhos por dia, lavando as mãos a cada dez minutos, passando aquele álcool fedorento. Nenhum mosquitinho me proibiu de dar um beijo em minha mulher, nos meus filhos e netos, nem de apertar a mão dos parentes e amigos. Nenhum aedes, nem grande nem pequeno, me picou e proibiu de tossir, de espirrar, de limpar a boca ou o nariz. E esse chinesinho, agora, que não passa de um nada prejudicial, esse tal de corona decide tudo sobre minha vida e ainda castiga, se não obedecer corretamente suas ordens.


Os amigos que me desculpem. Vou mudar de lado, vou passar para o lado do aedes, vestir a camisa dele. Ah! Vou sim. A partir de amanhã, sou aedes desde criancinha. Sou mesmo. Vou sujar a rua toda, jogar muito lixo, encher de copos vazios, botar fora muitas garrafas, deixar cheio de água o pratinho dos vasos, tirar a tampa da caixa d’água, fazer tudo para agradar meu amigo mosquitinho, que agora é meu companheiro. Gente boa, nunca matou ninguém. Gosto de gente assim.


Mas e o outro, o bananinha? Donde é que ele veio? Não é nem brasileiro. Não sei se tem os olhinhos puxados, mas parece que surgiu mesmo na China, e bem que poderia ter ficado por lá. Ninguém ia reclamar, não ia fazer falta nenhuma.


Qual seu tipo? Vive como? Fez alguma coisa boa? Não. Nada. Absolutamente nada. Fica lá para dentro da gente, mexendo com nossas coisas, para causar febre depois, trazer a dor de garganta, a falta de ar, e levar o pobre coitado para o inferno, que nem pode ser enterrado, tem de ser cremado.


Veja se não tenho razão. Há não sei quanto tempo estou lutando, sem sucesso, para me livrar e aos familiares e amigos da dengue. Mas a dengue mata?

Morre muita gente por causa dela? Se não mata aleija?


Não, nada disso. Agora, com o outro inimigo, sinto-me como os antigos mártires cristãos, sacrificados pelos assassinos romanos. Ficavam presos, passando fome, só rezando e vendo os leões que iriam comê-lo, muita empatia. Quem é que vai agora? Papai, claro, que é mais velho. Por que não a mamãe? Pensei deixá-la para depois. Sabia como as feras iriam fazer. Abatê-lo a dentadas e pancadas, antes de matá-lo, como o coroinha quer fazer comigo. Uma picadinha só e nem vou passar pelo purgatório. Direto rápido para o inferno. Se vai comer meu cadáver, não sei, nem vou saber.


Estou preso no quarto, há mais de um mês, sem poder receber visitas, lavando as mãos de meia em meia hora, desinfetando com álcool em gel, enxugando com papel toalha, enquanto o desgraçado do bichinho fica por aí, escondido não sei onde, passando de mão em mão, mordendo as gengivas, lambendo os beiços, paquerando a próxima vítima e imaginando como vai devorá-la daqui a pouco. Não está nem aí para o que vão sentir os pais, os filhos ou netos. Se vai degustar a todos também.


Não sei. Acho que o tal bichinho quer ser presidente da república também. Vamos ter uma disputa muito feia, então.


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