• Joaquim Rubens Fontes

Presente esquecido

A

triste volta do cemitério, sem minha doce Anita.

Os amigos, um a um, vêm abraçar e despedir.

Talvez até sintam realmente o que dizem.

Os filhos, depois, também se vão. Precisam.

Têm a vida deles para cuidar. Os filhos. Meus netos.

Fico só, com a silenciosa a solidão.

Triste, sem horizonte.

Muita coisa para fazer.

Arrumar a casa como Anita gostava.

Pôr tudo no lugar.

A sala, vazia demais,

Sem a voz nem os passos dela.

No canto, o piano mudo, que nunca mais vai tocar.

Também perdeu a amiga.

Abandonado no mundo,

Preciso agir, movimentar, viver.

Vou ao quarto. Apenas silêncio,

Que a solidão não fala.

A porta do armário um pouquinho aberta.

Distração? Esquecimento?

Visse assim, com certeza me culparia.

Dentro, um cheirinho gostoso,

Que conheço bem. É a cara dela,

Com muitas lembranças,

Trinta anos de vida e saudades.

O início foi alegre.

O encontro no cinema.

O namoro sério, muito amor.

A família inteira vigiando atenta.

O casamento nem demorou.

Foi uma festa. Muitos abraços. Estava tão linda!

Convencida. Sabia que agradava.

Todos olhando só para ela.

Com ciúmes, queria inteirinha para mim.

Tinha que ter? Por quê?

Se não ligava para mais ninguém.

Deixar de ser bonita é que não podia.

Isso não. Nem eu queria.

Os filhos foram chegando.

Dois, quase da mesma idade.

Os mesmos cuidados, os mesmos brinquedos, a mesma escola.

Ela sempre junto, não descuidava.

A primeira briga veio mais tarde,

Que nem lembrara de mim no dia dos pais.

Será que não merecia um abraço?

Do aniversário, não se esquecera,

Até me comprara um presente.

Um chinelo macio, que nem era meu número.

Ah! Melhor que um par de meias, ou outra bengala.

Mas era pequeno demais, não me servia,

O pé só cresce. Ficou para um filho.

Sem o encantamento dos primeiros anos,

Parecia decepcionada, deprimida,

Nem lembrava mais de nossas datas.

Por mais que procurasse, sei que não era,

Nunca fora, o marido de seus sonhos,

O príncipe encantado de sua juventude.

Ainda respeitava, ouvia, era carinhosa.

Mas fria, diferente, ausente.

Casados mas desunidos, distantes.

Cada qual para um lado.

Ninguém conversava mais. Não tinha assunto.

Os filhos, só quando não davam notícias.

A saúde... Foi perdendo com a idade.

Não gostava de médicos, não ia nunca.

Até adoecer, temendo que fosse grave.

Assim mesmo, sentindo,

Fez o bacalhau no dia dos pais

E pôs o vinho para gelar.

Esquecera apenas do presente.

Importava tanto assim?

Estava precisando de meias? Se tinha muitas.

Besteira, aborrecer por tão pouco.

Morreu triste? Chorou? Não vi. Na UTI...

Sem esposa, agora, sem namorada?

Sem a companheira séria e bonita,

Que só ligava para mim?

Melhor tocar a vida. Fechar o armário.

De relance, vi o pacote no meio das roupas.

Embrulho de presente. Para quem seria?

Por fora, nenhum nome. Precisava abrir.

Uma camisa muito bonita,

E um envelope pequeno.

Dentro, só um cartão.

“O presente do dia dos pais,

Que não pude entregar.

Ficou vendo o jogo e eu dormi de cansaço. Desculpe.

Comprei um número maior,

Deve servir.

Vai ficar muito bonito!

Com um beijo.

De sua Anita.

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