• Joaquim Rubens Fontes

Só escondido me garanto


Sei lá. Acho que nunca fui lá muito valente mesmo não. Nem podia.

De criança, era pequeno e magrinho, sem muita força para topar as paradas mais difíceis. Nas poucas vezes que tentei brigar com algum colega não saí muito orgulhoso não. Só dava para enfrentar os caras fazendo como fazia meu irmão: pegava uma pedra ou um bom pedaço de pau, que nunca usei. Quando o inimigo era mais forte, então, o negócio era correr depressa para dentro de casa, ou me esconder em algum lugar, esperando o outro ir-se embora. Não estava para correr risco.

O tormento maior daqueles tempos, e muito maior, era quando pegava um resfriado, comia alguma fruta verde ou qualquer coisa estragada, ou levava alguma queda por aí. Graças a Deus tinha mamãe para socorrer, que conhecia todas as espécies de remédio, que me tocava goela abaixo. Era chá de folha de camomila, de folha de hortelã, de laranjeira, chá de boldo, chá de carqueja, melhoral, guaraína, cibalene, mercúrio cromo, merthiolate, bálsamo bengué e toda uma farmácia mais. Chato foi quando fomos passar uns dias na casa de minha irmã, comendo jabuticaba no pé, engolindo os caroços, e tivemos de tomar lavagem. Coisa ruim demais, para não esquecer nunca mais.

Pois é! Não tenho mais minha mãe, que foi embora, e a coisa piorou. Agora mesmo, apareceu por aí uma gripezinha nova, que está perturbando a vida do mundo todo, e não sei o que fazer. Está levando muita gente boa para o hospital e até para o cemitério, que ninguém conhece nenhum remédio para se tratar. Já recomendaram tomar caipirinha, vodca, vinho tinto, uísque com mel, fazer sauna, fumar charutos e até tomar uma tal de cloroquina, que nem sei de que é feita nem de onde apareceu. O problema é que não acredito nesses remédios, nem nos médicos malucos, que nem são doutores de verdade, que nunca vi nenhum médico usando farda de militar, e não vou tomar nada disso. De jeito nenhum!

Mas fazer o quê então, se o inimigo é forte, mais vivo e vem com uma cambada muito grande de companheiros? Não sei como enfrentar, só sei rezar. Rezar e torcer para que o bichinho fique quietinho lá no seu canto, muito longe, e deixe em paz as pessoas de bem. Também não sei por que a polícia não pega logo a turma toda, enche um balaio até a boca e joga tudo no mar, para a gente ficar livre e poder viver em segurança. O jeito, então, é esconder mesmo, como fazia de criança, me enfiar em casa e não mostrar a cara na rua. Vão para mais de dois meses que não passo da porta da sala, não vejo a luz do sol, também se não tem nenhum lugar para ir, que a cidade está toda parada, sem bares, nem restaurantes, nem cinema, nem futebol, com o comércio todo fechado. O jornal até que chega cedo, mas só traz notícias apavorantes e, antes de ler, ainda devo desinfetá-lo com uma esponja umedecida em álcool. Preciso botar a máscara de pano até para chegar à janela, não posso nem cumprimentar ou beijar meus filhos e netos. Se tocar em alguém, em qualquer coisa, tenho de sair correndo para lavar bem as mãos com muito sabão e álcool em gel, botar imediatamente a roupa para lavar, e rezar muito.

O desgraçado do miudinho é mau mesmo. Devorou grande parte das empresas, matou muitos empregos, até dois ministros da saúde, que recusaram tomar a tal da cloroquina, e ainda mandou fechar as igrejas. Coisa do diabo mesmo! Acabou com praticamente toda a indústria nacional, só deixando algumas marcenarias que fazem leitos e caixões, que estas, sim, estão tendo um bom mercado, e as de têxteis, que produzem máscaras, aventais, camisolas e lençóis para os hospitais. A engenharia civil também levou um grande baque, está quase toda parada, construindo apenas hospitais e sepulturas. O pessoal da saúde é evidentemente o mais sacrificado, que está morrendo como frangos no abatedouro – médicos, paramédicos, enfermeiros e pessoal de ajuda. Com problema para substituir esses técnicos, o governo conta apenas com alguns soldados sem experiência, profissionais de outro ramo, sem condições de aplicar uma injeção ou tomar a pressão de alguém. Quando põem o termômetro e vê a temperatura do paciente subir um pouquinho, logo se desarvoram e saem gritando por socorro, que a temperatura está muito alta, a liberdade está em risco e as forças de segurança precisam estar a postos.

Pois é. Está ruim de fato, mas só tende a piorar.

E olhe que já estou há muito tempo fora do quarto, preciso me recolher logo, que os miudinhos podem estar vindo por aí.

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