• Joaquim Rubens Fontes

Tirolesa


Além de maior produtor de café, seu Procópio tinha muitas terras e gado para não acabar mais, com cinco empregados para ajudar na fazenda. Mas quem despertava a admiração era sua esposa, dona Regina Vitória. Montada na Tirolesa, uma alazã de sangue árabe, olhos vermelho-escuros como botões de rosa e que marchava com a harmonia de uma bailarina, balançando a crina alourada e comprida, reconhecida onde quer que chegasse. Nas festas da paróquia ou de alguma família, dona Regina era presença destacada, esbanjando charme e nobreza. Apesar dos cinquenta anos, quem a visse galopando pelas estradas se encantava com os cabelos louros, derramados nos ombros, os olhos amarronzados, o corpo esguio e a elegância na sela. Tinha carisma. Por mais de vinte anos foi admirada e querida. Ela e a Tirolesa, a inseparável companheira.


Mas nem todo dinheiro da família foi bastante para livrar o coronel Procópio de um enfarte, dois dias aos cuidados do médico e um velório concorrido, chegando a encher a matriz. Muitos acompanhantes se mostravam tristes pela perda do chefe. Tinha amizades e muitos serviços prestados ao município.


─ Foi o melhor prefeito da cidade. Sem ele, agora, não sei quem a gente vai pôr no lugar.


Em casa, o bastão foi para dona Regina, que ficou tocando os negócios e cuidando de tudo, inclusive do filho, que tentava fazer participar dos assuntos da fazenda. Só que o Zico, mal entrado nos vinte e quatro anos, tinha outros interesses, como o time de futebol da cidade, onde jogava, e a noiva que, segundo as próprias palavras, era muito bonita. Dureza mesmo não queria não.


Nada, porém, fazia medo a dona Regina. No lombo de sua égua, correndo pelo campo, topava qualquer parada. Cuidava da plantação do milho, da colheita do café, e ficava de cima dos vaqueiros para tirar o leite, vacinar o gado e trocar parte do rebanho para um pasto melhor. E ainda arranjava tempo para organizar as festas da paróquia, fazendo a alegria do vigário.


Tanto trabalhava a mãe quanto mandriava o filho, sempre com alguma coisa para fazer na cidade, ou em Viçosa, oito léguas adiante, onde tinha os negócios, antigos companheiros e a noiva, a Belinha.


O azar do Zico chegou quando teve de voltar às pressas de uma viagem, para cuidar da mãe, com um tumor no fígado, que não podia ser operado. Sua vida, a partir de então, entrou numa roda viva, tendo de cuidar da paciente, olhar a fazenda, tratar dos negócios e ver tudo, inclusive o Montanhês, seu time do coração, com as despesas atrasadas. Felizmente o período foi curto, que a doença respeitou a querida senhora, não maltratando muito, antes de mandá-la ao encontro do coronel.


De repente, o rapaz se via o dono da fazenda, que não gostava, e menos ainda de vagar sozinho por aquelas pradarias, sem os companheiros e as mulheres das farras. Decidiu casar-se, já que não precisava mais da licença de ninguém.


Pouca gente foi ao casamento, realizado em Viçosa, e o povo só foi conhecer a noiva no Natal, quando apareceu ao lado do marido, patrono da festa. Muito elegante, de vestido vermelho bastante generoso, em cima da Tirolesa, lembrando a pose da velha dona Regina. A Tirolesa é que parecia sentir a idade ou a perda da antiga dona, sem a velha estampa e marchando um tanto caída.


E foi lá mesmo, na festa de Natal, que seu Zequinha viu a nova vizinha e, como a maioria dos homens, caiu de paixão por ela. Seu Zequinha era um modesto sitiante, com uma vendinha na barra do Casca, onde criava uma família, com a mulher, alguns anos mais velha e bem gasta pelos trabalhos de casa e dos seis filhos, que cresciam soltos pelo terreiro. Visto de mais perto, seu Zequinha parecia ainda mais baixo, moreno tostado de sol, cabelos grisalhos e olhos negros e perspicazes. De posses limitadas, sempre precisara economizar para manter a família, sendo chamado pelos amigos de Mão de Samambaia.

Nem deu para ver direito a dona Belisa, ocupada o tempo todo em ajudar na festa. Só pôde ver mesmo na véspera de São Sebastião, que a cidade comemorava com muitos fogos. Conheceu, teve oportunidade de falar com ela e apresentar dona Francisca. Foi um encontro rápido, mas que o deixou de cabeça ainda mais virada. Aquilo sim é que era mulher, capaz de fazer a felicidade de um homem, não aquela lata de azeite enferrujada que tinha na cama e só servia para parir. Enlouqueceu de vez.


Conversando depois com o Zico no salão paroquial, falaram do café, do gado e dos negócios, e ficou sabendo da viagem dele a Viçosa, na terça-feira, dois dias depois, devendo passar umas duas ou três noites em casa da sogra.


─ Sempre leva e família, para matar as saudades?


─ Não, não. Desta vez não vai dar para levar não. Belinha vai ficar cuidando da fazenda.


Era tudo que precisava para a cabeça de seu Zequinha entrar em parafuso de vez. Imediatamente pôs-se a maquinar uma forma de encontrar a mulher sozinha, aborrecida com a solidão e pronta a aceitar qualquer proposta. Com a cabeça a mil, foi preparando tudo.

Eram perto de dez horas, na terça-feira, quando o Zico passou, montado no seu alazão, e fez uma paradinha à porta da venda, para trocar uma palavrinha, ganhar um copo d’água e confirmar o destino da viagem.


─ Fico por lá amanhã e volto na quinta-feira, se der para resolver tudo.


Foi difícil ao vendeiro ter paciência para almoçar e esperar ainda um pouco, antes de inventar a viagem à cidade, para comprar mais dois sacos de arroz, que estava acabando.

─ E como é que vai trazer isso, homem? O Tomires vai aguentar?


─ Deixo pago, seu Oscar manda trazer amanhã.


Enganar a mulher foi fácil e até os filhos, que nem falaram em acompanhar. O problema era ter de sair para a esquerda, se a cidade ficava para o outro lado.


─ Ninguém tem nada que ver não. Quiser aborrecer depois, invento uma desculpa.


Menos de uma légua, fez num instante. Foi chegando, amarrando o animal perto da cocheira e tocando à porta, que dona Belisa atendeu da janela, pedindo um tempinho, que estava muito à vontade.


─ Cadê nosso craque, o Zico? Vim resolver o negócio dos animais com ele.


─ Ah, pois é! Que pena! Saiu ainda agorinha para Viçosa.


Estava no manual, era tudo que esperava que acontecesse.


─ Foi sozinho? Deixando a joia dele para trás. Muito corajoso!


─ Foi. Muito longe para levar junto.


─ Mas na égua bonita, não ia cansar não.


─ Pois é! Podia ir nela. Senhor conhece?


─ Quem não conhece a Tirolesa, a rainha desses pastos todos?


─ Então o senhor também gosta dela?


─ Uma joia! Vale muito. Quando quiser vender, pode lembrar de mim.


Era exatamente o rumo que desejava dar à conversa. O próximo passo, mais arriscado, era propor o cruzamento dos animais, e, no entusiasmo do momento, tentar a cantada. Tinha certeza de que a mulher não iria resistir.


─ Não sei. Era da mãe dele, acho que anda pensando em se desfazer dela. Muito velha e caída.


─ Podia tirar uma cria, então? Com o Tomires, ia sair uma coisa muito boa.


Enquanto a dona Belisa se ajeitava no banco, seu Zequinha dava asas à imaginação, jamais pensara que iria ser tão fácil.


─ Verdade. Como uma mulher bonita como a senhora. Vai ter uns meninos bonitos também, questão só de querer. O que é que acha de pensar num caso...


Ainda falava, quando ouviu passos subindo a escada e, a seguir, viu aparecer o Zico, muito suado, surpreso pela presença do vizinho.


Dizem que o diabo é muito feio, não sei, acho que a questão é onde se dá o encontro. Perdido naquele mundão, sem a garrucha, nem saber como sair dali, seu Zequinha ficou alguns centímetros mais baixo, encurvado no assento, com os olhos cercados de rugas e suava dentro do terno de brim cáqui e das botinas apertadas. Tivesse fé, até faria uma promessa a algum santo de plantão para tirá-lo daquela enrascada, mas os santos que conhecia não entendiam muito de gado nem gostavam de fazendas.


Depois de contar porque desistira da viagem a Viçosa, ao saber do jogo no domingo e que iria ter de treinar no dia seguinte, Zico perguntou a razão da visita do seu Zequinha, que pouco antes deixara tão ocupado na venda.


─ Pois é! Vim ver seu gado, saber se a gente pode fazer algum negócio.


Não colou. O Zico não acreditou.


– Que negócio? Se viu que tinha ido viajar.


Quem se intrometeu na conversa foi dona Belisa, muito convicta.


─ Pronto! Pois foi mesmo, homem. Seu Zequinha, conta para ele a proposta que o senhor me fez. Pode contar, que ele precisa saber.


─ Pois diga você mesmo, mulher! Está esperando o quê? Quero saber logo.


Sem a garrucha, seu Zequinha sabia que estava perdido. O Tomires tinha ficado amarrado junto da cocheira, também sabia. Que nenhum santo ia querer fazer um milagre assim de oportunidade, só para proteger sua falta de vergonha, também sabia. Só não sabia mesmo era como chegar à cocheira, desamarrar o animal, montar e tocar, vencendo o Zico na corrida, e ainda esperar que o empregado fosse abrir a porteira, para sair sem levar muito chumbo no traseiro.


─ Bobagem dona. Teve nada importante não. Esquece o que eu falei.


─ Ah! Mas o Zico também precisa saber a proposta que fez. Senão, vai pensar o quê?


─ Certo! Diga lá, quero segredo nenhum aqui em casa não.


Convencida de sua força com o marido, Belinha justificou.


─ Ia fazer nada escondido não, homem! Qual? Se é o marido que casei.


─ Está certa. Se ele te fez uma proposta, preciso saber, por que não?


O terreiro da frente da fazenda tinha mais ou menos uns cem metros. A porteira era trancada com um cadeado muito grande e forte. O empregado não iria fazer nada correndo, nem sem as ordens do patrão, que nunca viajava sem a arma, balançando no coldre. Podia ocorrer alguma surpresa desagradável.


─ Falar para quê? Vai trazer constrangimento.


─ Ah, mas vou falar mesmo. Pronto! Não vou esconder nada de meu marido, do homem que eu amo.


Devia amar mesmo, mas bem que podia começar a amar a partir de amanhã, não ia ter nada de mais.


─ Mas você não está vendo que ele não vai gostar, que vai...


─ Seu Zequinha propôs comprar a Tirolesa, diz que dá cem mil réis por ela!


Falou de um jato, quase gritando.


Aliviado pela mudança de direção da conversa e esquecido do encontro já marcado no céu com São Pedro, seu Zequinha criou alma nova e ganhou outro brilho nos olhos.


─ Pois falei mesmo! Falei e garanto. – Enfiando a mão direita no bolso, tirou uma nota de cem mil réis já bem amarfanhada, depositando na mesa – Falei e garanto, que está aqui o dinheiro!


Mais tranquilo, Zico deu sua opinião.


─ E por que você não vende a égua, mulher? Cem mil réis é um bom dinheiro. A Tirolesa era muito boa com a mamãe, mas já está um pouco passada e, com esse dinheiro, você pode comprar outra mais nova.


Fechado o negócio, seu Zequinha pegou a estrada de volta, até a serra, maldizendo a perda dos cem mil réis que dera à mulher do Zico e iam fazer muita falta no caixa da venda. Estava guardando para a compra de uns sapatos melhores para a filharada, que agora ia ter de esperar mais um pouco. Foi, então, que lhe veio outra ideia, pensando em como chegar em casa com uma égua velha que todo o mundo conhecia e sabia que estava morrendo, cheia de bicheiras no lombo e com o tornozelo quebrado. Ia ter de dar muita explicação à mulher e aos clientes da venda, contar o prejuízo tomado e sofrer a zoação deles.


Aborrecido, desceu do animal para olhar de perto a pobre da eguinha que tinha tido muita distinção, mas agora não passava de um bicho agonizante. Olhou de um lado, olhou do outro, reparou nas gengivas, faltando alguns dentes, no rabo, puxou até a beirada da estrada. Retirou o cabresto. Passou-lhe a mão pelo pescoço. Pela cabeça, como que fazendo um carinho. E, de repente, com um empurrão, atirou-a pirambeira abaixo, vendo sua morte a cada volta.


Chateado, depois, chorando o dinheiro perdido e a vergonha passada, voltou à sela, vendo ao alto formar-se o círculo dos urubus, que certamente comemoravam o próximo banquete.

Rio, 28.09.17

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