• Joaquim Rubens Fontes

Uma lição difícil de esquecer

Atualizado: Mai 4



É claro que havia outras professoras na escola, algumas até mais antigas, mais dedicadas, competentes e muito sérias. Principalmente quando se tratava de línguas clássicas, como o grego, o latim, a história romana, etc. Algumas eram simpáticas também, conduziam muito bem as aulas e se empenhavam bastante. Dos professores, havia um grupo muito competente, muito sábio em língua e literatura portuguesa, em gramática, etimologia, estilística, semântica, etc. Dois ou três até com um currículo muito bom, com muito tempo de magistério nas melhores escolas do país e trabalhos publicados em livros ou nas mais conceituadas revistas. A escola estava muito bem servida.

Falei das professoras de língua grega e latina e foi exatamente com uma delas que tudo aconteceu. Com a dona Antonella, um pedaço de italiana forte e bonita, com doutorado em Roma e Berlim e participação em vários congressos internacionais, que contava ter vindo parar no Brasil trazida pelo marido, um cardiologista famoso, com clínica muito bem credenciada no Rio. Isso algumas décadas atrás, antes que muita coisa lhe passasse pela vida. Como a perda do marido, de um enfarto fulminante, ficando com um filho pequeno para criar e uma bela casa para cuidar, num dos últimos condomínios do Leblon. Para manter a casa e a família, a pobre professora via-se na obrigação de trabalhar muito, tendo de se multiplicar para conseguir rendimentos suficientes para não perder o status.

Bastante respeitada a dona Antonella, suas aulas eram sérias e puxadas, mas com pouca vida, ninguém podia fazer nenhuma brincadeira, qualquer gracinha, ninguém parecia interessado. Ainda mais que a professora da mesma matéria no nível anterior era uma grandessíssima incompetente, não preparando bem a rapaziada, que agora se via em dificuldades para acompanhar as aulas da grande mestra, acabando por não entender muita coisa. Um drama para a classe toda!

- Também, se nunca vou falar latim, para que vou precisar estudar a língua?

O negócio então era apenas conseguir a frequência necessária e ficar num bom grupo de trabalho, para alcançar a média e passar de ano. Muito séria e responsável, porém, dona Antonella não amolecia, continuando a passar grandes exercícios para casa, dando provas mensais e acompanhando o desempenho de cada aluno. E era exatamente disso que a gente tinha medo.

Foi no mês de junho que o caso aconteceu. Exatamente no dia treze, dia de Santo Antônio, protetor da dona Antonella, que nunca deixava de usar um grosso cordão de ouro com a grande medalha do santo no peito.

Com autorização da coordenadoria, mas trabalhando confidencialmente, para não estragar a surpresa, as meninas programaram uma homenagem à querida professora Leda, com uma bela festa, um grande bolo, refrigerantes, salgadinhos e doces, da melhor forma que a situação permitia. Tudo muito cuidado, inclusive o enfeite do salão. No centro da mesa, ao lado do bolo de chocolate, que a homenageada adorava, dentro de um pacote colorido, uma linda pulseira de pérolas e pendurado no teto uma grande faixa:

Salve o 13 de junho. Parabéns À mestra querida nosso abraço.

É claro que as despesas foram rateadas, mas a turma dos puxa-sacos era bem grande e as despesas não pesaram muito no bolso de ninguém.

A cerimônia estava marcada para o intervalo das aulas - de vinte minutos – precisamente às oito e quarenta, mas às oito e meia, entretanto, as organizadoras do evento já estavam indo de sala em sala, convocando os alunos, professores e funcionários para a comemoração, insistindo para que não houvesse atraso, que a coordenadoria não iria permitir. Somente a professora Leda, a grande homenageada, foi deixada para trás, para ser recebida com uma estrondosa salva de palmas pelos alunos.

Foi uma procissão pelos corredores. Não sei de onde saiu tanta gente. Armou-se um tumulto, todo o mundo querendo entrar ao mesmo tempo, procurando os melhores lugares, se preparando para a hora do avanço aos doces e salgadinhos, mas...

Felizes com o resultado dos trabalhos, Dorinha e Célia, as principais organizadoras, vinham chegando com a professora Leda, bastante desconfiada, quando um acidente melou a festa.


Um desastre geral!

Quem entrou antes na sala, completamente alheia ao que estava ocorrendo, foi a professora Antonella que, com um grito de surpresa, desabafou aos prantos.

- Gente! Vocês são maravilhosos. Vocês me matam de felicidade. Não sei como descobriram meu aniversário, no dia mesmo de meu protetor, se nunca ninguém, nem meu filho, nunca se lembrou de me dar nem um abraço e vocês agora me fazem esta homenagem tão maravilhosa. Obrigada! Muito obrigada gente. De todo meu coração!

Encantada, a aniversariante já abria o presente e experimentava a pulseira no braço, com um largo sorriso de felicidade.


- Obrigada, meus queridos. Vocês são maravilhosos. Vou fazer questão de usar esta pulseira nos momentos mais felizes de minha vida, para nunca mais me esquecer de vocês.

Foi difícil convencer as meninas a comprar outro presente para a pobre professora Leda que, muito conformada, foi cumprimentar a outra aniversariante, abraçando-a com um sorriso amarelo.

jrfontes (retirado da revista Novarte, da UBE, de out.2019)

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