• Joaquim Rubens Fontes

Uma questão do instituto



Chegava da barragem, onde concluía o assentamento de uma turbina, quando recebi o chamado do escritório, exigindo a presença imediata. Se nunca me trataram dessa forma, então... Terminei de passar as instruções ao engenheiro auxiliar, guardei as pastas e fui atender o chefe. Fazer o quê? Se é ele quem manda.


Nem tinha acabado de chegar, já o Edmar, o garoto da recepção, veio avisar que o chefe estava me esperando. Larguei tudo e subi ao escritório da coordenação.


─ Que bom que chegou logo. Temos uma notícia do Rio.


─ Sim. Notícia do Rio? De quem? Do doutor Herculano?


─ Bem... Da secretária. A Stela.


─ Pra mim? O que ela queria?


O coordenador fez um trejeito com a boca, escolhendo as palavras, para descarregar.


─ Um acidente! Houve um acidente com sua mulher.


Foi minha vez de entortar a boca e sentir um bago de suor escorrer pelo rosto.


─ Veja! Não tenho muitos detalhes, que a Stela não contou, nem sei se sabia.


─ Mas quem foi que sofreu o acidente, ela falou?


─ Falou. Dona Dora estava dirigindo e bateu na saída do túnel.


─ Mas se feriu? Preciso saber.


O doutor Ângelo se limitou a balançar a cabeça, sem saber o que responder.


─ Veja. A Stela não tinha detalhes, mas parece que foi grave sim. Se não a companhia não iria chamá-lo com tanta urgência. Não sei, mas penso que era sim.


Não precisava mais nada para me tirar do sério. Fiquei apavorado, querendo falar logo com a Dora, pedi à secretaria que fizesse a ligação para minha casa e comecei a falar em voz muito alta. Foi o doutor Ângelo que me alertou para o fato, abanando a mão, pedindo para falar mais baixo.


Tentei, mas não dava. Quem atendeu lá em casa foi a Creusa Maria, a maluca da empregada, que não falava nada direito. Só fazia chorar e dizer que não sabia.


─ Dona Dora telefonou aqui pra casa, que tinha batido com o carro e estavam levando o Juninho para o Instituto, mas não disse mais nada não. Já fiz até promessa para Santa Edwiges, mas estou com muito medo. O senhor precisa voltar para casa depressa.


Minha cabeça entrou em parafuso. Estive três vezes no Instituto Médico Legal, sendo a última para reconhecimento do corpo de um parente e fiquei horrorizado com aqueles gavetões frios e silenciosos. Não queria voltar lá nunca mais.


A sorte foi ter o motorista para me levar ao alojamento, para pegar algumas coisas, tomar um banho correndo e ir para o aeroporto. Só consegui chegar no Rio depois das sete horas, para enfrentar um trânsito todo engarrafado, até o Instituto Médico Legal, só pensando em encontrar meu filho morto e o mundo todo acabado.


No IML, procurei por toda parte, mas não encontrei a Dora, nem ninguém que soubesse dizer nada sobre meu filho. Fiquei mais desesperado, paralisado de pânico.


Foi num de meus acessos que um médico ainda jovem e muito tranquilo resolveu me atender, disposto a ouvir todo meu drama.


─ Tudo bem, vou dar-lhe um calmante mas, por favor, procure pensar um pouco. Aqui no Instituto não deu entrada nenhuma criança hoje, nem me lembro de sua senhora, que o senhor disse que teria vindo com ela.


─ Mas veio sim, se ela mesma falou.


─ Veja! Não estou dizendo que ela não tenha falado, mas pode ter se enganado, pode ter ido para outro lugar, sei lá! Foi ela mesma que falou?


Não há como ser compreensivo, quando se está em pânico.


─ Não. Mas falou com a empregada...


─ E não pode ter havido algum problema de comunicação? Não acharia melhor tornar a ligar para casa, conversar mais calmamente com a empregada e procurar esclarecer? O senhor, assim, vai poder, pelo menos tomar alguma decisão.


Coisa terrível! A gente desesperado e o cara com aquela calma toda, querendo aconselhar.

Sem opção, entretanto, resolvi aceitar o conselho. Liguei para casa. Foi a Dora que atendeu.


─ Ah! Meu bem. Que bom que chegou. O Juninho está ansioso, só querendo te contar o que aconteceu com a gente.


─ Estou aqui no IML, que a Creusa Maria disse que ia te encontrar.


Soltando uma risada, Dora explicou.


─ Não, não. Foi confusão da Creusa Maria. Levei o Juninho ao Instituto de Oftalmologia, para ver se tinha algum problema com a vista dele, que estava reclamando. Mas está bem, não teve nada não. A médica só pingou um colírio.

Rio, 30/04/17

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